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Os 4 centímetros de nitidez que o nariz rouba do olho
Com 50 mm aberta em f/1.8 a 1 metro, só cabe uma fatia fina do rosto; tocar na pupila mais próxima devolve a íris
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Foco no nariz, olho fora da faixa nítida
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Em retrato, o foco vai no olho. Numa lente de 50 milímetros aberta em f/1.8, a um metro do rosto, o ponto que a câmera escolhe sozinha costuma ser o nariz.
A razão é geometria. O nariz é a parte do rosto mais perto da lente, e muitos sistemas de autofoco (o motor que ajusta a nitidez sem a mão do fotógrafo) dão preferência ao que está mais próximo e tem mais contraste. A ponta do nariz, com brilho e sombra bem marcados, ganha a disputa.
Em f/8 (abertura pequena do diafragma, o furo por onde a luz entra), a escolha quase não faz diferença. A profundidade de campo (a faixa da cena que sai nítida, da frente para trás) passa de 20 centímetros a um metro de distância, e o rosto inteiro cabe nela com folga.
Em f/1.8 o furo está quase todo aberto, e essa faixa encolhe para cerca de 4 centímetros. É a espessura de uma caixa de fósforos deitada. Tudo que fica dentro dela sai nítido; o que passa da borda começa a amolecer, primeiro de leve, depois de forma clara.
Num rosto adulto, a ponta do nariz fica uns 3 centímetros à frente do olho mais próximo e uns 5 à frente do mais distante. Com o foco cravado no nariz, metade da faixa nítida se gasta no ar à frente dele, onde não há nada para fotografar. A outra metade mal chega ao canto do olho.
O resultado aparece na tela do computador, nunca na traseira da câmera. No visor pequeno, a foto parece perfeita. Ampliada, mostra poros nítidos na ponta do nariz e cílios moles, uma íris sem o desenho das fibras e o brilho da janela espalhado dentro da pupila.
O conserto custa um toque. Sem deixar a câmera decidir, o fotógrafo escolhe um único ponto de foco e o coloca sobre a pupila mais próxima da lente. A faixa de 4 centímetros então começa um pouco à frente do olho e termina um pouco atrás dele, e o nariz fica perto o bastante da borda para sair só levemente macio.
A imagem que abre esta edição mostra esse erro em ação, e a faixa seguinte mede, centímetro por centímetro, onde o foco caiu.
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I O Clique de Hoje
Poros no nariz, cílios moles
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O clique escolhido é a imagem que abre esta edição: um homem de barba curta, rosto em três quartos virado para a janela, fotografado bem de perto. A luz chega de lado e desenha o volume do rosto.
O ponto mais nítido do quadro é a ponta do nariz. Dá para contar os poros e ver o brilho da pele recortado com borda limpa. É ali que a lente concentrou o foco.
Três centímetros atrás, o olho mais próximo já perdeu o desenho. Os cílios aparecem como um traço escuro único, sem fios separados. A íris tem cor, mas não tem textura: as linhas que saem da pupila em raios sumiram.
O olho mais distante está pior. Ele fica uns 5 centímetros atrás do nariz, fora da faixa nítida, e virou uma mancha com formato de olho. A orelha e o cabelo, mais atrás, já se dissolvem no fundo.
A conta da faixa nítida depende de três números: a distância focal da lente (50 milímetros, que define o quanto ela aproxima a cena), a abertura (f/1.8) e a distância até o rosto (um metro). Com esses valores, a profundidade de campo fica perto de 4 centímetros, dividida quase ao meio: uns 2 à frente do ponto de foco e uns 2 atrás.
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Quem escolhe o ponto de foco escolhe onde começam e onde terminam os 4 centímetros.
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Com o foco no nariz, os 2 centímetros da frente caem no ar entre a lente e o rosto. Os 2 de trás alcançam a bochecha e param antes do olho. O retrato gasta a nitidez na parte do rosto que ninguém olha primeiro.
Com o foco na pupila mais próxima, a mesma faixa muda de lugar. Os 2 centímetros da frente cobrem o caminho até perto da ponta do nariz, e os 2 de trás pegam a pálpebra e o canto do olho. O nariz fica na beirada, macio de leve, e o olhar sai cravado.
O olho de trás continua fora. Em f/1.8, com o rosto em três quartos, não existe ponto de foco que salve os dois olhos e o nariz juntos. O fotógrafo decide qual parte fica nítida, e a convenção do retrato manda escolher o olho mais perto da câmera, porque é o primeiro lugar onde o espectador pousa a vista.
Há duas saídas quando o fotógrafo quer os dois olhos nítidos. Uma é girar a pessoa até o rosto ficar de frente para a lente, com os dois olhos na mesma distância. A outra é fechar o diafragma para f/4, que alarga a faixa para uns 9 centímetros e custa um pouco do fundo desfocado.
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II Quem Apertou
Os olhos verdes de Sharbat Gula
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Nenhuma pessoa apertou o disparador da imagem de abertura: ela foi gerada por um modelo de imagem, a partir de uma descrição escrita pela redação da Fotografia do Dia. O retrato com o olho mais famoso da fotografia, porém, tem autor e data.
Em 1984, o fotógrafo americano Steve McCurry visitou o campo de refugiados de Nasir Bagh, perto de Peshawar, no Paquistão. O campo abrigava famílias que fugiam da guerra no Afeganistão, e numa tenda usada como escola ele pediu para fotografar uma menina de uns 12 anos.
A menina era Sharbat Gula, refugiada afegã da etnia pashtun. McCurry não perguntou o nome dela naquele dia, e a foto correu o mundo sem identificação.
A imagem virou capa da revista National Geographic em junho de 1985, com o título de Menina Afegã. O que segura o leitor é o olhar: dois olhos verdes, abertos e fixos na lente, com a íris nítida o bastante para mostrar as manchas claras perto da pupila.
McCurry usava uma câmera Nikon FM2 de foco manual e filme Kodachrome 64 (uma película colorida de grão fino e pouca sensibilidade à luz). Sem autofoco, o ponto de nitidez dependia da mão dele no anel da lente, girando até os olhos da menina saírem limpos no visor.
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Na Menina Afegã, o xale e o fundo podem amolecer; o olho, não.
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O rosto dela estava quase de frente para a câmera, com os dois olhos à mesma distância da lente. É a situação mais generosa para o foco: um olho nítido garante o outro, e a faixa estreita cobre os dois.
O desfecho só veio 17 anos depois. Em 2002, McCurry voltou ao Afeganistão com uma equipe da National Geographic para procurar a menina da capa. Encontraram Sharbat Gula numa aldeia, casada e mãe de três filhas.
A identidade foi confirmada pelos olhos. O FBI comparou os padrões da íris na foto de 1984 com novas fotos tiradas em 2002 e atestou que eram da mesma pessoa. A íris tem um desenho de fibras próprio de cada indivíduo, e só aparece numa foto em que o foco caiu sobre ela.
McCurry fotografou Sharbat Gula de novo em 2002, segurando uma cópia da capa. O retrato de 1984 continua sendo a prova mais conhecida de que a escolha do ponto de foco decide o que o leitor lembra de uma foto.
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