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O zoom de 2x do celular usa só o miolo do sensor

A ficha do arquivo mostra qual lente gravou a foto, e à noite recuar e recortar depois rende uma imagem mais limpa

Duas telas de celular com a mesma fachada de café à noite.

A mesma rua no 2x e no 5x

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Zoom troca de lente. Em setembro de 2022, a Apple apresentou o iPhone 14 Pro com um botão de 2x que não troca lente nenhuma, e a regra caiu dentro do bolso de milhões de pessoas.

O botão aparece entre o 1x e o 3x, com a mesma cara dos outros dois. Quem toca nele vê a cena aproximar, o quadro fechar e a foto sair nítida, sem o borrão típico do zoom digital antigo.

Por trás da tela, nenhum vidro se mexe. O aparelho continua usando a câmera principal e grava só o miolo do sensor, um retângulo central com um quarto da área total, deixando as bordas de fora.

Cabe porque o sensor é grande. A câmera principal desse iPhone tem 48 megapixels, e o miolo usado no 2x tem 12, o mesmo tamanho de arquivo que os iPhones gravavam com todas as câmeras até 2021.

Ninguém inventa pixel nessa operação. Os fabricantes chamam o recurso de recorte do sensor, e ele dispensa a interpolação (o cálculo que cria pixels novos no meio dos reais para esticar a imagem).

O 3x, no mesmo aparelho, é outro caso. Ali o celular troca de fato para a lente telefoto (a de longo alcance, que aproxima sem recorte), montada sobre um sensor bem menor e com abertura mais estreita.

Durante o dia, a diferença quase some. A luz sobra, o sensor pequeno dá conta, e a foto em 3x sai tão limpa quanto a de 1x.

À noite, a telefoto paga a conta. Com menos luz chegando a um sensor menor, o celular sobe a sensibilidade e a foto ganha granulado no céu, nas sombras e nas roupas escuras.

O arquivo guarda o rastro de cada escolha. Toda foto de celular leva uma ficha técnica escondida, e ela conta qual lente gravou a cena, mesmo quando a tela mostrou só um número redondo.

A primeira seção abre essa ficha numa foto de fachada à noite e mostra a linha onde a lente se denuncia.

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I  O Clique de Hoje

A ficha que entrega a lente

A imagem do topo mostra a mesma fachada de café, à noite, em duas telas: a da esquerda limpa, a da direita aproximada e granulada.

As duas fotos parecem tiradas pelo mesmo olho. A diferença aparece só quando se abre a ficha de cada uma, o bloco de dados chamado EXIF (a ficha técnica que a câmera grava dentro do arquivo).

No iPhone, a ficha abre ao arrastar a foto para cima na galeria. No Android, o caminho costuma ser o botão de informações, com um “i” dentro de um círculo, na mesma tela.

A linha da distância focal

A linha decisiva é a distância focal (o quanto a lente aproxima a cena, medido em milímetros). Uma foto feita no 1x e outra no 2x mostram ali o mesmo número, perto de 6,8 milímetros no iPhone 15 Pro, porque a lente física é a mesma.

O que muda é o equivalente em 35 milímetros, o número que traduz o enquadramento para a escala das câmeras de filme. A foto em 1x marca 24, a foto em 2x marca 48, e a lente gravada continua sendo a principal.

A foto em 3x conta outra história. A distância focal física salta para cerca de 9 milímetros, o equivalente vai a 77, e a linha da lente passa a nomear a câmera telefoto.

O número na tela diz quanto a cena aproximou; a ficha diz qual vidro fez o trabalho.

O ISO como termômetro

Logo abaixo aparece o ISO (a sensibilidade que o celular aplicou ao sensor). Numa fachada à noite, a foto em 5x costuma marcar um ISO várias vezes acima do registrado pela foto em 2x feita segundos antes.

O salto explica o granulado. Quanto maior o ISO, mais o aparelho amplifica um sinal fraco, e o ruído (os pontinhos coloridos que surgem nas áreas escuras) cresce junto.

A abertura completa o retrato. A Apple divulgou em 2023 a lente principal do iPhone 15 Pro com abertura f/1.78 e a telefoto de 5x do 15 Pro Max com f/2.8, e quanto maior esse número, menos luz entra.

Daí o 2x tende a vencer à noite. Ele herda a lente clara e o sensor grande da câmera principal, enquanto o 5x trabalha com menos luz num sensor menor.

Quando recuar e recortar

Existe um terceiro caminho, ignorado pela maioria. Fotografar em 1x, chegar alguns passos para perto e recortar depois na galeria entrega o mesmo enquadramento do 3x usando o sensor principal.

O recorte custa resolução. Num arquivo de 48 megapixels, porém, cortar até o enquadramento de 3x ainda deixa perto de 5 megapixels, o suficiente para tela de celular e impressão pequena.

De dia, com luz farta, a telefoto ganha: o fundo fica mais comprimido e o detalhe fino sobra. À noite, sobretudo em interior de bar, rua mal iluminada ou palco, o recorte da principal costuma sair mais limpo.

 
 

II  Quem Apertou

O fotógrafo que andava até a foto

O fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson, nascido em 1908 em Chanteloup-en-Brie, passou quase toda a carreira com uma única distância focal na câmera.

A câmera era uma Leica de 35 milímetros, pequena e silenciosa, e a lente era quase sempre uma de 50 milímetros, perto do campo de visão do olho. Ele não tinha botão de aproximar: quem aproximava eram as pernas.

Cartier-Bresson cofundou em 1947 a agência Magnum, em Nova York, ao lado de Robert Capa, David Seymour e George Rodger. A agência fez a fama de um tipo de fotografia de rua tirada a poucos metros das pessoas.

O quadro decidido no visor

Ele defendia compor por inteiro no instante do clique. No livro Images à la sauvette (Imagens às pressas), publicado em 1952 e lançado em inglês como The Decisive Moment (O Instante Decisivo), escreveu: “Se você começa a cortar ou aparar uma boa fotografia, destrói o jogo de proporções concebido corretamente.”

As cópias que ele aprovava saíam com a borda preta do negativo à mostra. A moldura escura provava que o quadro impresso era o mesmo que o visor tinha visto, sem um milímetro a menos.

Cartier-Bresson trocava de enquadramento trocando de lugar, nunca de lente.

A foto que ele recortou

A regra tinha uma exceção famosa. Em 1932, atrás da estação Saint-Lazare, em Paris, ele fotografou um homem saltando sobre uma poça, com a lente enfiada no vão de uma cerca de tábuas.

A cerca invadiu a borda esquerda do negativo. Para a imagem sair, a cópia final teve de ser recortada, e a foto mais conhecida da carreira dele é justamente uma das poucas sem a moldura preta inteira.

O próprio Cartier-Bresson explicou o motivo em entrevistas posteriores: o vão da cerca impedia qualquer enquadramento limpo, e cortar era o único jeito de salvar o salto.

Ele parou de fotografar com regularidade nos anos 1970 para se dedicar ao desenho e faleceu em 2004, em Montjustin, no sul da França, aos 95 anos.

O método dele ensina o 1x do celular. Andar até a cena vale como regra, e o recorte fica reservado à foto em que nenhum passo resolve, como a cerca de Saint-Lazare.

 

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III  Real ou Feito

Feito, e o granulado copiado

Feito. As duas telas do topo nunca fotografaram café nenhum: um programa de inteligência artificial montou a cena a partir de um texto da redação, e três detalhes denunciam a origem.

Primeira pista: o granulado é igual nas duas metades. Numa foto real de telefoto à noite, o ruído pesa nas sombras e quase some nas áreas acesas. Na imagem, o granulado cobre por igual o céu escuro e a vitrine iluminada.

Segunda pista: a vitrine não aproxima. A tela da direita mostra a fachada mais perto, mas o reflexo na vitrine tem o mesmo tamanho nas duas fotos. Num zoom real, o reflexo cresceria junto com o vidro.

Terceira pista: o painel de informações não diz nada. As fichas abertas embaixo das telas trazem linhas e números sem sentido. Uma ficha real mostraria a lente, a distância focal e o ISO, como na primeira seção.

A diferença de limpeza entre as telas, por sua vez, está correta. É o contraste que um 2x de sensor principal e um 5x de telefoto produzem diante da mesma rua à noite.

Para medir a escolha no seu aparelho, bastam uma cena com pouca luz, como uma sala com só um abajur aceso, e o celular apoiado sobre uma mesa.

1. Fotografe o abajur no 2x, sem mexer o celular de lugar.

2. Fotografe de novo no 3x ou 5x, o que o aparelho tiver.

3. Recue para o 1x, fotografe e recorte na galeria até o mesmo enquadramento do 5x.

4. Abra a ficha de cada foto e anote a linha da lente e o ISO.

5. Amplie as três imagens até 100% numa parede escura e compare o granulado.

A foto de 2x vai marcar a lente principal e o ISO mais baixo. A telefoto vai marcar a lente própria e o ISO mais alto, e o recorte do 1x vai ficar com o granulado no meio-termo, com menos detalhe nas bordas.

Celulares sem câmera de 48 megapixels nem sempre fazem o 2x pelo recorte limpo. Nesses aparelhos, o 2x estica a imagem por interpolação, e a ficha mostra a lente principal com o enquadramento ampliado por cálculo.

À noite, a lente gravada na ficha decide a limpeza da foto.

Teste hoje, com o abajur aceso e a luz do teto apagada: faça as três fotos, abra a ficha de cada uma e anote o ISO; espere o 2x com o menor número e a telefoto com o maior, e conte em qual delas a parede escura mostra menos pontinhos.

 
 
Quiz da edição

No iPhone 14 Pro, qual é o tamanho em megapixels do recorte central do sensor principal usado pelo zoom de 2x?

A8 megapixels
B24 megapixels
C12 megapixels
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