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ED 011

O sol virou estrela de dezoito pontas na quina da parede

As pontas contam quantas lâminas o diafragma tem, e a última marca do anel de abertura explica o desenho que um clarão colado nunca acerta

Ponto de luz branco encaixado na quina de uma parede caiada, abrindo em dezoito riscos retos e finos.

Dezoito pontas saindo de uma quina de parede

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Toda lente tem um buraco que muda de forma. Lâminas finas de metal deslizam umas sobre as outras e desenham o furo por onde a luz entra. Escancarado, o furo chega quase redondo. Fechado até o fim, vira polígono, com arestas retas e cantos vivos.

Luz que passa raspando numa aresta reta não segue em frente. Ela abre em leque para os dois lados, na perpendicular da lâmina que a cortou, e chega ao sensor esticada num risco fino em vez de pousar num ponto.

Daí sai uma conta que qualquer pessoa faz olhando a tela. Diafragma de número par tem uma lâmina paralela para cada lâmina, os riscos caem um sobre o outro e sobram tantas pontas quantas lâminas. Seis lâminas devolvem seis pontas, grossas.

Número ímpar não fecha par para ninguém. Cada aresta fica com as duas pontas dela, o total dobra, e nove lâminas devolvem dezoito riscos mais finos, espalhados em intervalos iguais ao redor do miolo branco.

A quantidade de pontas não é escolha de quem fotografa. É a assinatura do vidro, decidida na fábrica, e ela se repete em toda foto tirada com aquela lente fechada, em qualquer cidade, a qualquer hora do dia.

O desenho tem preço, e o preço é cobrado no quadro inteiro. O mesmo espalhamento que estica a ponta espalha cada detalhe da parede, da pedra e da telha, e abertura bem fechada devolve a imagem toda um pouco mais mole do que a mesma lente entrega no meio do anel.

Falta a condição que quase todo mundo esquece. A fonte precisa ser pequena a ponto de a lente não conseguir desenhar o corpo dela. O sol, a cento e cinquenta milhões de quilômetros, cabe na medida. Uma lâmpada de parede a poucos metros do vidro chega larga demais e sai como bolha lisa.

A imagem de hoje encaixa o sol numa aresta de parede caiada e deixa as pontas contáveis uma a uma, sem lupa e sem programa. Vale começar pelo que dá para contar antes de abrir a ficha.

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I  O Clique de Hoje

Dezoito riscos de luz na quina caiada

A imagem tem duas paredes caiadas de um vilarejo grego, e o sol encaixado na quina de uma delas abre num leque de riscos finos e contáveis.

O quadro é horizontal e quase todo branco. De um lado e de outro sobem massas de parede caiada, e entre elas fica um rasgo de céu claro, sem nuvem, que vai clareando conforme desce até o meio da imagem.

À esquerda, uma parede de topo arredondado, cor de creme, com um relevo circular gasto no reboco e uma placa esculpida perto do alto. Embaixo dela, um portão de madeira escura em moldura de pedra.

À direita, uma parede mais alta e mais branca. O topo dela desce da direita para a esquerda numa linha inclinada e termina numa quina, logo acima de uma fresta escura de beco.

O sol está exatamente nessa quina. A parede esconde o disco quase todo, e o que sobra é um miolo branco pequeno, do tamanho de uma moeda dentro do quadro, sem nenhum detalhe por dentro.

Do miolo saem riscos retos. Eles não têm o mesmo comprimento nem o mesmo brilho, mas saem em intervalos iguais, e dá para acompanhar cada um por vários centímetros de tela.

Contando até voltar ao ponto de partida, são dezoito. O ângulo entre um risco e o vizinho fica perto de vinte graus, que é trezentos e sessenta dividido por dezoito.

Os riscos não respeitam a parede. Vários atravessam a face branca da direita como faixas de luz por cima do reboco, passam sobre um cabo preto esticado e só se apagam quando o brilho acaba.

Num deles, o que desce para a esquerda, aparece separação de cor. Uma faixa esverdeada de um lado e um rastro arroxeado do outro, no meio do risco, longe da borda do quadro.

Logo acima do sol, presa num braço de ferro, uma luminária retangular aparece de perfil, escura contra o céu, com luz vazando pelas bordas.

Descendo o quadro, aparece o resto do lugar. Vasos de barro na base da parede do meio, um nicho de pedra em arco, uma buganvília de brácteas vermelhas na parede da direita e chão de pedra encaixada.

Perto da porta, uma lâmpada acesa na parede brilha em laranja no meio do reboco cinzento, e não tem uma ponta sequer.

A diferença entre as duas fontes não é de brilho. A lâmpada está a poucos metros do vidro, larga o bastante para a lente desenhar o bulbo inteiro, e fonte com tamanho não vira estrela.

Falta a parte que o quadro sozinho não entrega: quem apertou, de onde, com qual aparelho e com o anel parado em que número. Nesta, o arquivo está publicado e a ficha veio inteira.

 
 

II  Quem Apertou

O X-T1 travado em f/16 dentro do Kastro

A foto tem autor identificado, data com hora, coordenada gravada, licença aberta e ficha técnica completa. Ela foi feita em 28 de julho de 2016, com o relógio da câmera marcando 16h38, no Kastro de Chora, em Naxos, na Grécia, e está no acervo aberto do Wikimedia Commons.

Quem assina é o fotógrafo que publica como Jules Verne Times Two. Ele subiu o arquivo como trabalho próprio, sob licença de atribuição e compartilhamento, com o nome "A starburst amidst old houses, Chora, Naxos, Greece".

A imagem carrega o selo de imagem de qualidade do acervo, dado por revisão de outros colaboradores.

A coordenada aponta 37,1061 de latitude norte e 25,3768 de longitude leste, dentro do Kastro, o núcleo veneziano murado da cidade. As palavras-chave do autor citam a catedral católica da Apresentação do Senhor, no mesmo pátio.

O aparelho é uma Fujifilm X-T1, câmera de sensor APS-C. O arquivo tem 4.912 por 3.252 pixels e saiu revelado no Lightroom Classic 13.0.1, num Mac, sete anos depois do clique.

A lente veio gravada com nome e tudo: Fujinon XF 16mm f/1.4 R WR, em 16 milímetros, equivalentes a 24 no formato tradicional. Grande angular de verdade, e o catálogo do fabricante declara nove lâminas de diafragma.

A ficha deixa a conta aberta em três números: 1/60 de segundo de obturador, abertura f/16 e sensibilidade ISO 320. Modo de prioridade de abertura, medição por padrão, compensação zerada e flash desligado.

O f/16 é o fim do anel dessa lente. Ela abre em f/1.4 e fecha em f/16, e quem clicou foi até a última marca, sem deixar meio ponto sobrando para trás.

Sol pleno com ISO 320 pediria algo perto de 1/320 em f/16. A ficha parou em 1/60, dois pontos e meio acima, porque o assunto medido não era o sol e sim a parede caiada que está de costas para ele, na sombra.

A prioridade de abertura conta o resto. Quem clicou escolheu um número só, o f/16, e deixou a câmera resolver o tempo e a sensibilidade em cima do que a medição enxergou.

Dezesseis milímetros também explicam o tamanho do sol dentro da imagem. Quanto mais curta a lente, menor o disco no arquivo, e miolo pequeno deixa risco fino aparecer em vez de sumir num clarão gordo.

Dois números que decidem a cena não entram em ficha nenhuma: quantas lâminas o diafragma tem e quanto do disco do sol a quina da parede tapou.

O primeiro mora no catálogo da lente e some no arquivo. O segundo só o quadro entrega: o miolo branco é minúsculo perto da largura do leque.

Quadro e ficha, juntos, já sustentam a leitura. Faltam os sinais que separam uma estrela nascida dentro do diafragma de um clarão colado por cima depois.

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III  Real ou Feito

Vinte graus entre uma ponta e a outra

Real. A conclusão sai do próprio quadro e da ficha, e a mesma ficha entrega o roteiro para repetir a cena no primeiro fim de tarde livre.

O primeiro sinal é a conta das pontas. Dezoito é par, e par de pontas vem por duas rotas: dezoito lâminas, que lente de fotografia não tem, ou nove, que é o número declarado pelo fabricante.

O espaçamento fecha junto. Dezoito riscos repartindo trezentos e sessenta graus dão vinte graus entre vizinhos, e a medida se confirma ao redor do miolo, ponta por ponta.

Estrela colada nasce de pincel de programa, e pincel vem de fábrica com quatro, seis ou oito braços. Quando o número bate por acaso, o desenho sai perfeito demais, com todos os braços do mesmo comprimento.

O segundo sinal é o risco passando por cima da parede. As pontas atravessam a face branca da direita, por cima do reboco e por cima do cabo, mesmo com a parede plantada na frente do sol.

A ordem física é essa. A parede tapa o disco antes da lente, e o risco nasce depois, dentro do vidro, sobre a imagem já formada.

Quem monta o efeito faz o contrário. Coloca a estrela atrás do prédio para o desenho parecer certo, e o cuidado a mais denuncia a montagem.

A separação de cor fecha o par de sinais. O ângulo de espalhamento depende do comprimento de onda, então risco longo abre em verde de um lado e roxo do outro. Camada colada chega com uma cor só.

Some ainda a lâmpada acesa no mesmo clique. Ela é fonte larga e não vira estrela, e montagem que quisesse brilho na cena teria dado risco a ela também.

O arquivo ainda declara o que foi mexido. O autor marcou a imagem como retocada e escreveu que removeu uma pessoa e cabos, e nenhuma das dezoito pontas está na lista.

Detector automático de imagem falsa não resolve o caso. Porcentagem não explica por que o ângulo entre dois riscos vizinhos cai perto de vinte graus.

1. Feche o anel até o fim, entre f/11 e f/16, e aceite o quadro um pouco mais mole. Celular não tem anel, a abertura dele é fixa, e a estrela dele sai sempre com o mesmo número de pontas.

2. Encoste o sol numa aresta dura, quina de parede ou beirada de telhado, e deixe a aresta comer quase todo o disco. Miolo pequeno é o que faz risco comprido.

3. Meça pela superfície na sombra, nunca pelo sol, e depois amplie a tela e conte as pontas. Dezoito na contagem valem nove lâminas no seu vidro, e o número não muda mais.

As pontas contam as lâminas e a última marca do anel desenha o resto, então a estrela nascida no diafragma chega com número, ângulo e cor que um clarão colado depois não sabe imitar.

"Quantas pontas o sol ganha na sua lente favorita quando você fecha o anel até a última marca?"

 
 
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De acordo com a apuração, o que decide o número de pontas da estrela que o sol desenha num quadro?

AA quantidade de lâminas do diafragma da lente
BA distância focal escolhida na hora do clique
CA sensibilidade ISO gravada na ficha
DA altura do sol acima da linha do telhado
Veja o ranking de quem mais acerta →
 
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