|
|
|
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
|
|
|
Você escolhe a edição de amanhã: a votação está no fim desta edição.
|
| {{subiu_orn | }} |
{{subiu_num | }} |
{{subiu_orn | }} |
{{subiu_caps | }}
{{subiu_linha | }}
|
|
O horizonte torto em 3 graus que o mar entrega
A borda da foto denuncia o desnível; 3 graus de inclinação no mar aparecem, e endireitar depois corta 14% da imagem
|
Horizonte 3 graus fora de nível
|
| ▼ |
| |
|
O mar fica plano na foto. Na imagem que abre esta edição, ele desce 3 graus da esquerda para a direita, e qualquer leitor percebe sem saber medir.
Na praia, ao vivo, a mesma inclinação passaria em branco. O olho humano corrige a postura da cabeça o tempo todo, e o ouvido interno informa onde fica o chão. Ninguém sente o oceano escorregar quando inclina o pescoço para ver uma gaivota.
A fotografia tira essa ajuda. Ela recorta a cena num retângulo, e as quatro bordas do retângulo viram uma referência fixa: duas linhas em pé e duas deitadas. O horizonte fica comparado com a borda de baixo, centímetro por centímetro.
O psicólogo americano Stuart Appelle descreveu em 1972, na revista Psychological Bulletin, o chamado efeito oblíquo (a vantagem que o olho tem para julgar linhas retas em pé ou deitadas, frente às linhas diagonais). Uma linha quase deitada é justamente onde o olho fica mais exigente.
No mar, a linha do horizonte é longa, contínua e sem nada que a interrompa, e quase sempre atravessa o quadro inteiro. Num retrato ou numa rua, a inclinação se esconde entre prédios, postes e pessoas. Na água, ela corre de uma borda à outra, e a diferença de altura entre as pontas fica exposta.
A conta da imagem de abertura mostra o tamanho do desvio. Num quadro de 3 por 2 com 1.200 pixels de largura, 3 graus de inclinação fazem uma ponta do horizonte ficar 63 pixels acima da outra. Na tela do celular, são uns 4 milímetros de degrau.
Esse degrau aparece porque a borda do quadro está logo ali, reta, servindo de comparação. Um ou 2 graus costumam passar despercebidos; acima de 2, o leitor sente que a foto está caindo antes de entender por quê.
O conserto existe e tem custo. Endireitar depois obriga a recortar, e o recorte come uma parte da imagem que o fotógrafo nunca recupera.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I O Clique de Hoje
A praia que escorrega para a direita
|
|
O clique escolhido é a imagem que abre esta edição: uma praia ao amanhecer, mar calmo, céu limpo e o horizonte descendo 3 graus da esquerda para a direita. O resto da cena está em ordem: areia, espuma fina e uma faixa alaranjada no céu.
O defeito tem endereço. A ponta esquerda do horizonte está acima da linha que divide o quadro em terços; a ponta direita está abaixo dela. Quem encosta uma folha de papel reta sobre a tela vê o mar inteiro escorrer para o canto.
A primeira defesa é a grade do celular. No iPhone, ela fica em Ajustes, Câmera, Grade. Nos aparelhos Android, aparece no menu de engrenagem do próprio aplicativo da câmera, com o nome de linhas de grade. A tela ganha duas linhas em pé e duas deitadas, que dividem o quadro em nove partes.
Com a grade ligada, o fotógrafo encosta o horizonte numa das linhas deitadas e compara as pontas. Se a água toca a linha na esquerda e foge dela na direita, a câmera está torta. Basta girar o pulso até as duas pontas encostarem.
O iPhone faz mais uma ajuda com a grade ligada. Ao apontar a câmera para uma cena quase reta, ele mostra um pequeno nível no centro da tela: dois traços que ficam amarelos e se unem quando o aparelho está alinhado com o chão.
|
A grade não endireita a foto; ela dá ao olho a mesma borda reta que o leitor vai usar depois.
|
A segunda defesa é corrigir no editor. Todo aplicativo de foto tem uma ferramenta de girar com ajuste fino, em décimos de grau. O problema é a sobra: ao girar o retângulo, os cantos saem da imagem, e o editor corta a foto para esconder o vazio.
A conta do corte depende do formato. Num quadro de 3 por 2, endireitar 1 grau reduz a largura útil em cerca de 2,5%. Com 2 graus, a perda sobe para quase 5%. Com 3 graus, o quadro perde perto de 7% da largura e da altura, o que dá uns 14% da área total.
Esses 14% saem das bordas, onde costuma estar a pedra no canto, o barco pequeno ao fundo ou a margem que deixava o céu respirar. A correção salva a linha e sacrifica a composição.
A terceira defesa é física. Quem fotografa o mar com frequência apoia a câmera num tripé com bolha de nível, ou num muro, e trava o horizonte antes de olhar para o resto da cena. A areia fofa engana: o tripé afunda de um lado em poucos minutos. Vale conferir a bolha a cada troca de posição, e não só na primeira foto da manhã.
|
|
|
|
|
II Quem Apertou
Hiroshi Sugimoto e o mar sempre reto
|
|
Nenhuma pessoa apertou o disparador da imagem de abertura: ela foi gerada por um modelo de imagem, a partir de uma descrição escrita pela redação da Fotografia do Dia. A fotografia de mar com horizonte perfeito, porém, tem um autor conhecido.
O fotógrafo japonês Hiroshi Sugimoto, nascido em Tóquio em 1948, começou em 1980 a série Seascapes (Paisagens Marinhas). São fotos em preto e branco de mares de vários pontos do planeta, sempre com o mesmo desenho: metade água, metade céu, e o horizonte cortando o quadro ao meio.
Sugimoto trabalhou com uma câmera de grande formato, que usa chapas de filme de 8 por 10 polegadas (cerca de 20 por 25 centímetros). Esse tipo de câmera fica sobre um tripé pesado e se ajusta com calma, o que permite nivelar a linha antes de abrir o obturador (a cortina que deixa a luz passar até o filme).
A série inteira depende de uma única decisão de geometria. Com o horizonte no centro exato e sem nenhuma inclinação, a borda da foto e a linha do mar ficam paralelas. Qualquer desvio quebraria a simetria que dá sentido ao trabalho.
|
No mar de Sugimoto, a linha reta é o assunto da foto.
|
O fotógrafo fez as imagens em lugares como o Mar do Caribe, o Mar Báltico e o Oceano Pacífico. Nas reproduções, um leitor que cobre as legendas dificilmente diz qual mar é qual. A troca de lugar muda a textura da água e a luz, e o horizonte continua no mesmo ponto.
Sugimoto também usou exposições longas em várias fotos da série. Com o obturador aberto por bastante tempo, as ondas se fundem numa superfície lisa, e a linha entre água e céu fica mais limpa, sem crista de onda quebrando o contorno.
Algumas imagens da série foram feitas com neblina, e nelas o horizonte quase desaparece numa faixa cinza. Mesmo nesses casos, o centro do quadro marca onde a linha estaria. O desenho da série se mantém mesmo quando a água some da vista.
A lição para o fotógrafo de passeio vem da ordem dos gestos. Sugimoto nivelava a câmera primeiro e esperava a luz depois. No celular, a ordem costuma ser a inversa: a luz bonita aparece, o polegar aperta e o horizonte fica onde a mão deixou.
|
| |
|