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1 leitor escolheu Ângulo do movimento. Aqui está.
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O ciclista de frente fica nítido em 1/125
Cruzando o quadro, o mesmo ciclista a 20 por hora pede 1/500; vindo para a lente, ele quase não anda sobre o sensor
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Ciclista de frente, nítido em 1/125
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Objeto em movimento pede obturador rápido. Um ciclista a 20 quilômetros por hora, vindo de frente para a lente, desobedece a regra e sai nítido com um quarto da velocidade.
A regra tem base física. Enquanto o obturador (a cortina que abre e fecha a passagem de luz) fica aberto, a imagem do ciclista anda sobre o sensor. Se ela anda mais do que o tamanho de um ponto da foto, a borda vira rastro e a roda vira mancha.
A 20 quilômetros por hora, o ciclista percorre pouco mais de 5,5 metros a cada segundo. Em 1/500 de segundo, ele avança cerca de 11 milímetros. Cruzando o quadro a uns 5 metros da câmera, esses 11 milímetros viram um deslocamento lateral pequeno o bastante para a borda do capacete continuar limpa.
Em 1/125, o tempo aberto é 4 vezes maior, e o ciclista anda cerca de 44 milímetros. De lado, o rastro aparece: a roda dianteira perde os raios e o contorno do braço dobra.
Agora vire o ciclista. Pedalando direto para a lente, ele avança os mesmos 44 milímetros, só que na direção do eixo da câmera, e quase nada desse avanço vira movimento lateral na imagem. O corpo dele cresce um pouco no quadro, sem escorregar para a direita ou para a esquerda.
O sensor só registra o que se move por cima dele. Avanço em profundidade aparece como um leve aumento de tamanho, e esse aumento, a 5 metros e em 1/125, fica abaixo do que o olho consegue separar numa foto de celular.
Fotógrafo de esporte usa o efeito sem fazer conta: posiciona-se na saída da curva, onde o atleta vem de frente, e ganha 2 pontos de luz (cada ponto dobra a luz que chega ao sensor) para fechar o diafragma ou baixar o ISO (a sensibilidade do sensor).
A diagonal fica no meio do caminho. Um ciclista vindo a 45 graus da lente desliza parte do avanço sobre o sensor e pede uma velocidade intermediária, perto de 1/250.
A imagem que abre esta edição mostra um ciclista de frente, nítido da roda ao capacete, e a faixa seguinte aponta onde o ângulo trabalhou.
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I O Clique de Hoje
Quarenta milímetros que não aparecem
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O clique escolhido é a imagem que abre esta edição: um ciclista adulto pedalando numa rua de cidade, vindo direto para a lente, fotografado na altura do guidão. O asfalto é cinza, uma faixa branca corta o chão e os prédios ao fundo saem levemente desfocados.
O capacete está nítido. As tiras que descem até o queixo aparecem com borda definida, e o reflexo da luz no casco forma um ponto pequeno, sem cauda. Se a imagem do ciclista tivesse escorregado sobre o sensor, esse ponto viraria um traço.
A roda dianteira confirma. Vista de frente, ela aparece como uma faixa estreita e vertical, com o pneu e o garfo bem desenhados. Os raios, que giram rápido, ficam quase invisíveis nesse ângulo, porque o giro deles também acontece de lado para a câmera.
O rosto segue a mesma conta. Sobrancelha, nariz e boca mantêm contorno firme. Para o rosto borrar, a cabeça precisaria balançar de um lado para o outro durante a exposição, e o ciclista olhando para frente quase não balança.
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De lado, o ciclista atravessa o sensor. De frente, ele só cresce sobre ele.
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O fundo conta outra história. Os prédios saem macios, e o motivo é o foco, não o movimento: a câmera mirou o ciclista, e o diafragma aberto deixa o que está longe fora da faixa nítida. Quem confunde as duas origens de desfoque erra o ajuste seguinte.
Há um ponto da imagem onde o movimento aparece: os pés. Os pedais sobem e descem, e a perna que empurra passa de cima para baixo no quadro, atravessando o sensor na vertical. Num 1/125 real, o tornozelo ganharia uma leve sombra de rastro.
A distância também entra na conta. Quanto mais perto a câmera, maior o deslocamento de qualquer movimento lateral sobre o sensor. O mesmo ciclista cruzando o quadro a 2 metros borra em 1/500, e a 20 metros fica nítido em 1/125, mesmo de lado.
Fotógrafo de ciclismo de estrada chama a posição de cabeça de pelotão: em pé na beira da pista, numa reta longa, com a lente apontada para o grupo que se aproxima. O ângulo frontal dá nitidez com obturador mais lento e deixa o diafragma livre para separar o atleta do fundo.
O preço do ângulo frontal é o foco. O ciclista muda de distância a cada fração de segundo, e a câmera precisa acompanhar essa mudança com o foco contínuo ligado, o modo em que a lente reajusta o ponto nítido sem parar enquanto o botão fica meio apertado.
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II Quem Apertou
O garoto do Grande Prêmio
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Nenhuma pessoa apertou o disparador da imagem de abertura: ela foi gerada por um modelo de imagem, a partir de uma descrição escrita pela redação da Fotografia do Dia, para mostrar um ciclista nítido vindo de frente. A física do ângulo, porém, tem uma foto célebre que a prova pelo avesso.
Jacques Henri Lartigue tinha 18 anos em 1912, quando foi com a família assistir ao Grande Prêmio do Automóvel Clube da França, em Dieppe, no norte do país. Filho de família rica, ele fotografava desde criança e levava uma câmera de placa de vidro da marca Ica.
Ele se posicionou na beira da estrada e esperou os carros passarem de lado, cruzando o quadro em alta velocidade. Quando o carro número 6 apareceu, Lartigue girou a câmera para acompanhá-lo e disparou.
A foto saiu torta de um jeito que ninguém tinha planejado. A roda do carro virou uma elipse inclinada para frente, como se o carro estivesse esticando o corpo. Os espectadores na beira da pista saíram inclinados para trás.
A causa estava no obturador de cortina, que não abre o quadro inteiro de uma vez: uma fenda corre de cima para baixo e expõe uma faixa da placa de cada vez. Enquanto a fenda descia, o carro avançava de lado e Lartigue girava a câmera, e cada faixa da imagem registrou o carro e o público numa posição diferente.
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A cortina mostrou o movimento lateral, faixa por faixa.
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Se o carro viesse de frente para a lente, a deformação mal apareceria. O avanço na direção da câmera não desloca a imagem de lado, e a fenda pegaria o carro quase no mesmo lugar do começo ao fim da exposição.
Lartigue guardou a foto num álbum e passou décadas sem mostrá-la como obra. O reconhecimento chegou em 1963, quando o Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, expôs as fotografias dele, e a imagem do Grande Prêmio virou referência de velocidade na fotografia.
O mesmo efeito volta hoje no celular. Sensores de celular leem a imagem linha por linha, no modo chamado rolling shutter (obturador de varredura), e uma hélice ou um carro cruzando de lado sai torto do mesmo jeito que o carro de 1912.
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