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Na metade da canela, o pé continua

Cortada no tornozelo, a perna da foto termina num toco; cortada na metade da canela, o olho estica o corpo para fora do quadro

Mulher de vestido listrado sentada num banco de praça, com os pés e a mão direita cortados pelas bordas da foto.

Sentada no banco, cortada no pulso e nos tornozelos

▼
 

A borda de uma foto não passa sobre uma junta do corpo. Na foto da formatura, tirada do alto da escada do auditório, o tio passou a borda de baixo bem nos tornozelos da turma inteira.

Ninguém da turma perdeu um pé. Os sapatos ficaram de fora por uma faixa fina, menos de um dedo de altura na tela do celular. Impressa e posta no porta-retratos, a foto mostra quarenta formandos de beca em pé sobre tocos.

Se a borda subisse até a metade das canelas, a foto mostraria menos perna e ninguém sentiria falta de nada: o olho daria os pés por presentes, logo abaixo do quadro.

O olho trata a borda da foto como a moldura de uma janela. Quem vê pela janela uma pessoa da cintura para cima não imagina que ela termina ali; supõe as pernas atrás da parede. Na foto, a borda faz o papel da parede, desde que corte o corpo num trecho reto, onde a forma tem para onde seguir.

Na junta, a forma muda de rumo. O pé dobra para a frente no tornozelo, a mão dobra no pulso, o antebraço dobra no cotovelo. A borda que passa bem nessa dobra coincide com o limite natural de uma parte do corpo, e o olho lê a beira do quadro como a ponta da perna.

O mesmo vale para o pulso na foto de casal, para o joelho na foto de quem está sentado e para o pescoço no retrato fechado demais. Nos três casos, o conserto custa meio passo para trás, um gesto de pinça na tela ou um recorte depois, na galeria do celular.

O Clique de Hoje mostra as oito juntas onde a borda não deve passar, os trechos do corpo onde ela corta sem ferir ninguém e como acertar o recorte na tela, antes e depois do clique.

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I  O Clique de Hoje

Oito juntas longe da borda

Na foto de abertura, uma mulher de vestido listrado posa sentada num banco de praça, com a borda de baixo passando nos tornozelos e a borda esquerda no pulso do braço apoiado no encosto.

A cena tem tudo no lugar: rosto nítido, luz mansa, fundo desfocado. Mesmo assim a leitura sai torta. Os pés ficaram abaixo do quadro por um triz, a mão direita ficou além da borda esquerda, e o corpo parece acabar em dois cortes retos nos tornozelos e um no pulso.

As oito juntas

Retratistas de estúdio repetem a mesma lista de lugares onde a borda não passa. São as dobras em que uma parte do corpo encontra a seguinte:

• Pescoço: a borda de baixo rente ao queixo deixa uma cabeça solta no quadro.

• Ombro: na linha dos ombros, sobra um busto sem braços.

• Cotovelo: o braço dobrado some na dobra e parece encerrado ali.

• Pulso: a mão de fora deixa o antebraço terminado num toco.

• Quadril: na linha da virilha, a pessoa de pé perde as pernas logo onde elas começam.

• Joelho: na pessoa sentada, a borda na dobra do joelho deixa a coxa sem canela.

• Tornozelo: os pés de fora deixam a pessoa de pé sobre tocos.

• Dedos: a borda nos nós dos dedos corta as pontas e deixa a mão sem acabamento.

Nas oito, a borda coincide com uma fronteira que o corpo já tem. O olho junta as duas linhas numa só e conclui que a parte acabou ali.

A borda da foto precisa parecer a moldura de uma janela, nunca o contorno do corpo.

Onde a borda pode passar

O lugar seguro é a metade do osso, onde o membro corre reto e a forma aponta com clareza para onde vai:

• Na metade da coxa, no retrato da cabeça até acima dos joelhos.

• Na metade da canela, na foto de pé que não cabe inteira.

• Na metade do antebraço, quando a mão escapa pela lateral.

• Na metade do braço, entre o ombro e o cotovelo, no retrato fechado.

• Na testa, quando o rosto enche o quadro: a borda de cima pode cortar o alto da cabeça, e o olho completa o cabelo sem esforço.

Há um terceiro caminho, mais simples: incluir a junta inteira e mais um pedaço depois dela. Com o pé todo e um palmo de chão abaixo do sapato, a foto deixa de depender do olho para completar qualquer parte.

Acertar na tela

Antes de apertar, passe o olho pelas quatro bordas da tela, uma por vez, e veja o que cada uma está cortando. Se uma delas cair numa dobra do corpo, dê meio passo para trás ou afaste a imagem com dois dedos na tela até a junta entrar com folga.

Na foto de grupo, fotografe mais aberto que o necessário. A ferramenta de recorte da galeria corta depois, com calma, na metade do osso mais próximo; o que ficou fora no clique não volta.

 
 

II  Quem Apertou

Wertheimer e a linha que continua

O psicólogo Max Wertheimer, nascido em Praga, publicou em 1923 a lei de percepção que explica por que a perna cortada na canela continua e a cortada no tornozelo acaba.

Wertheimer nasceu em 1880, numa família judia de Praga, então parte do Império Austro-Húngaro. Começou pelo direito, trocou para a filosofia e a psicologia e fez o doutorado em Würzburg, na Alemanha, em 1904.

O trem de 1910

A história que os livros de psicologia repetem começa num trem, em 1910. Numa viagem de férias, Wertheimer teria descido em Frankfurt com uma ideia sobre movimento aparente (a ilusão de que algo anda quando só há imagens paradas trocando rápido) e comprado um estroboscópio de brinquedo (o disco de figuras que parecem se mexer quando ele gira) para testá-la.

Os experimentos seguiram no instituto de psicologia da cidade, com dois assistentes do instituto que viraram nomes da área, Wolfgang Köhler e Kurt Koffka. O artigo saiu em 1912 e abriu a escola da Gestalt (palavra alemã para forma ou configuração): a ideia de que o olho percebe conjuntos inteiros antes das partes.

Em 1923, ele abriu o texto principal da escola, Untersuchungen zur Lehre von der Gestalt (Investigações sobre a teoria da forma), segunda parte, com uma cena de janela:

“Estou à janela e vejo uma casa, árvores, céu. Por razões teóricas, eu poderia tentar contar e dizer: aqui há 327 brilhos e tons de cor. Tenho eu 327? Não. Tenho céu, casa, árvores.”
Max Wertheimer, Untersuchungen zur Lehre von der Gestalt II, 1923

A lei da boa continuação

No mesmo artigo, Wertheimer listou as regras com que o olho agrupa o que vê. Uma delas ganhou o nome de boa continuação: diante de uma linha que some atrás de um obstáculo, o olho a prolonga na mesma direção e espera encontrá-la do outro lado, sem quebra.

Num dos desenhos do artigo, uma linha ondulada cruza uma linha em degraus, e quem olha vê as duas inteiras, sem trocar de linha nos cruzamentos.

O artigo não fala de fotografia, mas a lei explica a borda. A canela cortada na metade é uma linha reta que some na beira do quadro, e o olho a prolonga até o chão. No tornozelo, a linha da perna termina numa dobra: o pé seguiria para a frente, num ângulo que o olho não tem como adivinhar, e a perna fica dada por encerrada.

O olho completa o que segue reto. Onde o corpo dobra, ele para de completar.

Da Alemanha para Manhattan

Em 1933, com os nazistas no poder, Wertheimer deixou a Alemanha com a família. Foi dar aula na New School for Social Research (Nova Escola de Pesquisa Social), em Manhattan, onde ensinou por dez anos. Viveu até 1943, e o livro Productive Thinking (Pensamento produtivo), com as ideias desses anos, saiu em 1945.

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Nota do editor

Essa edição é gratuita, mas requer horas de pesquisa, escrita, design, revisão, agendamento e publicação. Cada apoio seu é um gesto simples para continuarmos esse projeto 100% gratuito.

 
 

III  Real ou Feito

Feito, e o encosto em degrau

Feito. A mulher do banco nunca posou numa praça: um programa de inteligência artificial montou a cena a partir de uma descrição em texto escrita pela redação, e três detalhes não batem com uma praça real.

Primeira pista: o encosto em degrau. A ripa mais alta do encosto passa atrás dos ombros da mulher. No lado esquerdo da foto, ela aparece na altura do ombro; no lado direito, volta um palmo mais baixo. Uma ripa de madeira é reta, e o trecho escondido pelo corpo teria de ligar as duas pontas na mesma altura.

Segunda pista: as listras desencontradas. O antebraço esquerdo atravessa o colo por cima das listras verticais do vestido. Acima do braço, as listras caem num lugar; abaixo dele, recomeçam deslocadas meia listra para o lado, como se o tecido tivesse escorregado atrás do braço.

Terceira pista: seis dedos. A mão esquerda pousada sobre a coxa tem um dedo a mais, entre o anelar e o mínimo. O programa desenha dedos como um padrão repetido e perde a conta, justamente na parte do corpo mais cheia de juntas pequenas.

Somadas, as três pistas mostram uma máquina que pinta cada pedaço visível com capricho e não confere se o que some atrás do corpo reaparece no lugar certo. O olho humano faz essa conferência sem esforço, pela lei de Wertheimer.

O detalhe que bate com uma foto real é o próprio enquadramento: os pés de fora por um triz e a mão cortada no pulso pela borda esquerda. É o corte que o celular entrega quando quem fotografa enquadra pelo rosto e esquece as bordas.

Para ver a lei na própria família, bastam uma pessoa de pé, o celular e uma parede lisa atrás dela.

1. Fotografe a pessoa de pé com a borda de baixo passando nos tornozelos, os sapatos de fora.

2. Sem sair do lugar, incline o celular um pouco para cima até a borda de baixo cortar a metade das canelas.

3. Peça que ela abra um braço para o lado e fotografe com a borda lateral no pulso, a mão de fora.

4. Repita a terceira foto com a borda lateral na metade do antebraço.

Se a segunda foto ainda parecer cortada, a borda parou perto demais do tornozelo: suba até a metade exata da canela e repita.

Teste hoje: mostre as quatro fotos a três pessoas sem explicar nada e pergunte em quais falta alguma parte do corpo; o esperado é as três apontarem a do tornozelo e a do pulso, embora as outras duas mostrem menos perna e menos braço.

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, em que ano Wertheimer publicou o texto principal da escola da Gestalt, o que trazia a lei da boa continuação?

A1910, ano da viagem de trem em que teve a ideia sobre movimento aparente
B1904, ano do doutorado em Würzburg
C1923, em Untersuchungen zur Lehre von der Gestalt
D1912, ano em que saiu o artigo com Köhler e Koffka

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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