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Gire o zoom em 1/15 de segundo e a cidade vira riscos

Do centro para fora, cada luz do quadro corre num traço; quem está parado no eixo da lente continua nítido

Pipoqueiro nítido no centro, neon riscado em raios ao redor.

Neon em raios, pipoqueiro parado no centro

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Foto noturna sem tripé obedece a uma regra: a mão fica parada durante todo o clique. Fotógrafos de rua e de show passaram a girar a lente de propósito com o obturador (a cortina que deixa a luz chegar ao sensor) aberto, e a foto melhorou.

O gesto tem nome em inglês, zoom burst (explosão de zoom), e um nome mais simples por aqui: zoom arrastado. A câmera continua apontada para o mesmo ponto, e a mão gira o anel de zoom (a peça da lente que aproxima ou afasta o enquadramento) durante a exposição (o tempo em que o sensor recebe luz).

A receita mais repetida usa uma lente de 24 a 70 milímetros e 1/15 de segundo. Os milímetros medem a distância focal (o quanto a lente aproxima): em 24 milímetros cabe a rua inteira, em 70 cabe uma vitrine.

Durante esse quinze avos de segundo, cada ponto de luz do quadro anda. Um poste perto da borda sai do lugar e corre para fora, desenhando um traço. Um letreiro na lateral vira um raio. Quanto mais longe do centro, mais comprido fica o risco.

O ponto exato do centro do quadro não se desloca. Ali a imagem só cresce, e quem está parado nesse lugar mantém rosto, roupa e contorno reconhecíveis.

O resultado parece efeito de computador, mas cabe numa câmera com lente zoom e num pulso firme. Não exige aplicativo nem filtro, e uma câmera de 2008 faz igual a uma recém-lançada.

O preço é o desperdício. A maioria das tentativas sai torta: o giro começa tarde, a mão balança, o centro escorrega para fora do assunto. Quem usa o recurso conta com dezenas de cliques para guardar um.

Também pesa a escolha do lugar. Rua apagada não risca nada, e a técnica pede letreiro, farol, vitrine, qualquer luz forte contra fundo escuro. Uma praça com quiosques acesos às oito da noite rende mais que uma avenida inteira sob o sol.

O texto abaixo destrincha a foto do topo, conta de onde veio a lente que tornou o truque possível e aponta os sinais de que a imagem não saiu de uma câmera.

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I  O Clique de Hoje

A cidade corre para as bordas

A imagem do topo mostra um pipoqueiro parado na calçada, à noite, com letreiros de neon riscados em raios vermelhos e amarelos que saem do carrinho rumo às bordas. Ela resume a técnica num quadro só.

O pipoqueiro ocupa o centro do enquadramento, e por isso continua legível. Dá para ver o boné, a mão no saco de papel, o vapor saindo da panela. Nenhum outro elemento da cena tem esse privilégio.

A razão é geometria. Quando a distância focal aumenta, a imagem inteira cresce a partir do eixo óptico (a linha reta que atravessa o centro da lente). Um ponto colado no eixo apenas aumenta de tamanho. Um ponto afastado do eixo, além de crescer, se desloca para fora.

De 24 para 70 milímetros, a ampliação passa de quase três vezes. Uma lâmpada que estava a cinco milímetros do centro do sensor termina a quase quinze. O traço dela cobre a distância entre as duas posições.

Quanto mais longe do centro, mais longo o risco; no centro exato, risco nenhum.

O tempo de 1/15 de segundo também tem motivo. Com 1/250, o giro não cabe na exposição e a foto sai normal. Com um segundo inteiro, o pipoqueiro também vira borrão, porque ninguém fica imóvel tanto tempo e a própria mão do fotógrafo treme.

A luz manda no desenho. Fonte forte contra fundo escuro risca bem: neon, farol de carro, vitrine acesa. Superfície apagada, como asfalto e parede, quase não deixa rastro, e a técnica decepciona sob o sol do meio-dia.

O fotógrafo pode girar o anel nos dois sentidos. Abrindo de 70 para 24, os riscos parecem chegar das bordas e convergir para o assunto. Fechando de 24 para 70, parecem fugir dele. O desenho é parecido, a sensação muda.

Outro truque é segurar o zoom parado num trecho do clique. Se o giro só começa depois de um terço da exposição, o sensor grava primeiro uma versão nítida da cena e depois os riscos por cima. O centro fica ainda mais limpo, e a rua ganha contorno.

O foco, curiosamente, não escapa durante o giro. A lente atravessa de 24 a 70 milímetros e o pipoqueiro segue nítido, sem que o fotógrafo encoste no anel de foco.

 
 

II  Quem Apertou

O Zoomar de Frank Back

A foto do topo não tem autor humano: um gerador de imagens montou a cena seguindo um roteiro escrito pela nossa redação. O gesto que ela imita, porém, depende de uma peça de vidro com história e com dono.

Sem lente zoom, não existe zoom arrastado. E a primeira zoom feita para câmera fotográfica de 35 milímetros (o filme de bolso, padrão das câmeras amadoras) foi o Voigtländer-Zoomar, apresentado em 1959.

Quem desenhou a lente foi Frank Gerhard Back, engenheiro nascido em Viena em 1902 e radicado nos Estados Unidos. Na década de 1940, a empresa dele, a Zoomar, já vendia zooms para câmeras de televisão e de cinema.

A televisão foi a primeira freguesa por um motivo prático. Uma câmera de estúdio trocava de lente girando uma torre com três ou quatro objetivas fixas. A zoom aproximava o jogador ou o apresentador sem corte, num movimento contínuo.

Fotografia parada parecia não precisar disso. O fotógrafo trocava a lente entre um clique e outro, e o vidro fixo era mais nítido e mais leve.

Mesmo assim, Back levou o projeto para a fábrica alemã Voigtländer, que lançou o modelo com distância focal de 36 a 82 milímetros e abertura f/2.8 (o tamanho máximo do buraco por onde a luz passa).

A lente pesava bem mais que uma objetiva fixa e custava caro. Saiu para a Bessamatic, câmera da própria Voigtländer, e para outras câmeras de lente trocável da época.

A zoom nasceu para a televisão aproximar sem corte; a fotografia descobriu que ela também risca.

Com a zoom na mão, girar o anel durante a exposição virou possibilidade. Na década de 1960, a técnica aparece em fotos de show e de rua, com as luzes do palco riscadas em volta do músico.

Não há registro firme de quem fez o primeiro zoom arrastado. O gesto pode ter surgido por acidente em muitas câmeras quase juntas, sem que alguém anotasse data ou autoria, e nenhum arquivo de fotografia reivindica a primazia. O que se sabe é que a técnica só se espalhou depois que as zooms ficaram baratas, nos anos 1970.

Back seguiu desenhando lentes e viveu até 1983. As zooms atuais, com 24 a 70 milímetros e corpo bem menor, herdaram o princípio do Zoomar: grupos de lente que deslizam dentro do cano e mudam a ampliação sem trocar o vidro.

 

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III  Real ou Feito

Feito, e os riscos sem centro

Feito. O pipoqueiro, o neon e os riscos saíram de um gerador de imagens, e a geometria do zoom entrega a fraude.

Primeira pista: os riscos não apontam para um centro único. Num zoom arrastado real, todos os traços, se prolongados para dentro, se encontram no eixo da lente. Na imagem, alguns riscos da esquerda miram outro ponto, acima do boné.

Outra pista mora no comprimento. Na foto verdadeira, o traço cresce com a distância até o centro. Na imagem do topo, letreiros perto da borda e perto do carrinho têm riscos quase do mesmo tamanho.

A terceira pista está no próprio pipoqueiro. Mesmo parado no centro, um assunto real ganha um leve halo, porque ocupa área e as bordas dele também se afastam do eixo. A figura gerada tem contorno recortado, nítido até o último fio do boné.

Para fazer o efeito de verdade, basta uma câmera com lente zoom de anel. Celular não serve: mesmo os que têm teleobjetiva trocam de câmera em saltos e recortam a imagem entre elas, sem girar vidro nenhum.

1. Ponha a câmera no modo de prioridade de velocidade (S ou Tv no seletor) e escolha 1/15 de segundo.

2. Ajuste o ISO (a sensibilidade do sensor) até o fotômetro indicar exposição correta para o neon.

3. Comece em 24 milímetros, mire uma pessoa ou objeto parado e foque nele.

4. Aperte o disparador e, logo depois, gire o anel até 70 milímetros num movimento contínuo.

5. Repita dez vezes, variando o instante em que o giro começa.

Cotovelos colados ao corpo seguram o quadro: o giro mexe a mão, e a mão leva a câmera junto se o braço estiver solto. Encostar o ombro num poste firma ainda mais.

Se o centro sair borrado em todas as tentativas, a velocidade ficou lenta para a sua mão: suba para 1/30 de segundo e gire mais rápido. Se os riscos saírem curtos e tímidos, o giro começou tarde ou parou antes dos 70 milímetros, e vale atrasar o disparo meio segundo depois de pegar o anel.

O centro da foto é o único lugar onde o zoom não deixa rastro.

Teste esta noite: faça dez cliques de 1/15 de segundo numa rua com letreiros, girando de 24 para 70 milímetros. Conte quantos guardam o assunto central legível; no primeiro lote, espere dois ou três.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Que peça escondida no cano da zoom mantém o foco preso enquanto o anel gira?

 
 
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Segundo a edição, qual tempo de exposição é o mais usado na receita do zoom arrastado?

A1/250 de segundo
B1/15 de segundo
C1 segundo inteiro
D1/60 de segundo

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