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Nenhum fotógrafo esteve na calçada da mulher de casaco cinza: a cena foi gerada por computador, montada a partir de um texto que a redação escreveu. O defeito que ela imita, porém, tem um mestre real.
Lee Friedlander nasceu em 1934 em Aberdeen, cidade pequena do estado de Washington, no noroeste americano. Estudou fotografia em Los Angeles e se mudou para Nova York em 1956.
Nos primeiros anos, pagou as contas fotografando músicos de jazz para capas de discos da gravadora Atlantic. Nas horas livres, andava pelas ruas com uma Leica, câmera pequena de filme de 35 milímetros.
Na rua, Friedlander fez o contrário do que os manuais pediam. Postes, placas, galhos, reflexos de vitrine e fios cortam as fotos dele de propósito, e muitas vezes passam bem na frente de uma pessoa ou de um monumento.
Num dos autorretratos mais conhecidos dele, só a sombra do fotógrafo aparece, projetada nas costas de uma mulher que anda à frente na calçada. A sombra da cabeça dele cai sobre o casaco dela.
Em 1967, o Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, juntou Friedlander, Diane Arbus e Garry Winogrand na exposição New Documents (novos documentos). O curador John Szarkowski escreveu no texto da mostra, em 1967: “O objetivo deles não tem sido reformar a vida, mas conhecê-la.”
Bagunça com regra
O caos das fotos de Friedlander é calculado. Ele escolhe onde o poste corta: entre duas pessoas, dividindo a cena em metades, ou na frente de uma placa, apagando uma palavra.
Isso muda a leitura do defeito. Na foto de família, o poste na cabeça entra porque ninguém olhou o fundo. Na foto de Friedlander, entra porque ele olhou o fundo antes de olhar a pessoa.
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O poste vira assunto quando o fotógrafo o escolhe; vira erro quando o fotógrafo nem o viu.
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Friedlander recebeu a bolsa da Fundação MacArthur em 1990, prêmio americano dado a criadores de trabalho original. Nos anos 1990, trocou a Leica por uma Hasselblad SWC, câmera de filme quadrado com lente de campo largo, que põe ainda mais cidade no quadro.
Ele ainda publicava livros depois dos 85 anos. Em 2005, o MoMA abriu uma retrospectiva grande da obra dele, com centenas de fotos.
Para o retrato do dia a dia, a lição vale ao contrário. Friedlander provou que o fundo sempre entra na foto, queira o fotógrafo ou não. A diferença está em quem decide onde ele entra.
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