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Dê 2 passos para o lado e o poste sai da cabeça

Na rua, o olho vê a pessoa e ignora o fundo; a câmera achata tudo e planta o poste no alto do rosto

Mulher na calçada com um poste saindo da cabeça.

Poste atrás do rosto, fios sobre o cabelo

▼
 

Nada atrás da cabeça pode encostar nela. Quase todo retrato de rua quebra a regra com um poste, e o fotógrafo só descobre em casa, ao abrir a galeria.

A cena é comum. A amiga para na calçada, sorri, e o celular sobe. Na tela, ela está bem enquadrada, a luz está boa, o sorriso saiu. Atrás, a cinco metros, um poste de concreto se alinha com o centro do rosto e parece brotar do alto do cabelo.

Ao vivo, ninguém repara. O olho humano trabalha com dois pontos de vista, um para cada lado do nariz, e o cérebro usa a diferença entre eles para separar o que está perto do que está longe. A amiga fica num plano, o poste fica em outro, e a cabeça não se mistura com nada.

A câmera tem um olho só. Ela registra a cena como uma folha plana, sem profundidade, e o poste que estava a cinco metros vira uma faixa cinza colada à testa. A foto mostra o que o fotógrafo não viu.

Fotógrafos chamam o defeito de merger (fusão, em inglês): o objeto do fundo gruda na figura da frente e as duas formas viram uma. Poste, árvore, placa e antena são os casos mais frequentes na cidade, porque sobem na vertical e cortam o quadro inteiro.

A correção não pede lente nova nem programa de edição. Basta trocar de lugar. Dois passos para a esquerda ou para a direita, sem mudar a altura do celular nem a moldura, empurram o poste para o lado do rosto e deixam a cabeça contra a parede, o céu ou a vitrine.

O truque funciona pela paralaxe (o deslocamento aparente de um objeto quando quem olha muda de posição). Ao andar, a pessoa perto da câmera se move muito no quadro e o poste longe se move pouco. Um passo de 70 centímetros basta para separar os dois.

A primeira parte mede esse deslocamento na imagem do topo, a segunda conta a história de um fotógrafo americano que transformou postes em assinatura, e a terceira mostra por que a cena não saiu de uma câmera.

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I  O Clique de Hoje

A faixa cinza na testa

A resposta de ontem

Que peça deixava Helen Levitt fotografar sem ser notada?

Um visor de ângulo reto, o Winkelsucher (buscador angular, em alemão), encaixado na Leica: um espelho desviava a vista em 90 graus. Levitt olhava para o lado enquanto a lente mirava as crianças, que se achavam fora da foto. O obituário do The New York Times, de 2009, registra o truque.

A imagem do topo mostra uma mulher de casaco cinza numa calçada, enquadrada do peito para cima, e um poste de concreto que sobe atrás dela até sair do topo da cabeça.

O poste está fora de foco, mas a mancha não some. A linha vertical entra pela borda de baixo do quadro, passa escondida atrás do pescoço e reaparece acima do cabelo, como se continuasse o corpo dela.

Os fios que saem do alto do poste pioram o efeito. Eles se abrem para os lados na altura das orelhas e desenham uma antena sobre a cabeça.

A geometria do conserto é simples. Imagine a mulher a dois metros da câmera e o poste a sete. Quando o fotógrafo anda para o lado, as duas coisas parecem correr no quadro na direção contrária, mas a mais próxima corre mais.

Com dois passos, cerca de 1,4 metro de deslocamento, a mulher se desloca no quadro bem mais que o poste. O fotógrafo então gira o corpo para recolocá-la no centro, e o poste fica para trás, longe do rosto, perto da borda.

O que muda e o que fica

A moldura continua a mesma: a mulher do peito para cima, no centro, com a mesma altura de câmera. Muda só a fatia de cidade atrás dela.

Por isso a regra pede passos para o lado, nunca para trás. Recuar afasta a pessoa e o poste na mesma proporção aproximada e não os separa. Chegar mais perto também não resolve, só aumenta o rosto em cima da mesma linha.

Abaixar ou subir a câmera ajuda pouco com poste. A linha é vertical e longa, e mudar a altura só desliza o ponto onde ela encosta na cabeça.

Quem anda para o lado move a pessoa no quadro; o poste quase não sai do lugar.

Desfocar o fundo também não salva a foto. O modo retrato do celular borra o poste, mas a mancha cinza segue no mesmo lugar e continua lendo como antena. O desfoque suaviza a borda, não muda a posição.

Há fundos que dispensam a manobra. Parede lisa, céu aberto, folhagem densa e vitrine escura não têm linha nenhuma para crescer da cabeça. Encontrar um deles antes de pedir o sorriso economiza a segunda foto.

O hábito que resolve o problema leva dois segundos. Antes de apertar, o olho sai do rosto e percorre a borda da cabeça na tela, do ombro esquerdo ao direito, procurando qualquer linha que encoste no cabelo.

 
 

II  Quem Apertou

Lee Friedlander e os postes

Nenhum fotógrafo esteve na calçada da mulher de casaco cinza: a cena foi gerada por computador, montada a partir de um texto que a redação escreveu. O defeito que ela imita, porém, tem um mestre real.

Lee Friedlander nasceu em 1934 em Aberdeen, cidade pequena do estado de Washington, no noroeste americano. Estudou fotografia em Los Angeles e se mudou para Nova York em 1956.

Nos primeiros anos, pagou as contas fotografando músicos de jazz para capas de discos da gravadora Atlantic. Nas horas livres, andava pelas ruas com uma Leica, câmera pequena de filme de 35 milímetros.

Na rua, Friedlander fez o contrário do que os manuais pediam. Postes, placas, galhos, reflexos de vitrine e fios cortam as fotos dele de propósito, e muitas vezes passam bem na frente de uma pessoa ou de um monumento.

Num dos autorretratos mais conhecidos dele, só a sombra do fotógrafo aparece, projetada nas costas de uma mulher que anda à frente na calçada. A sombra da cabeça dele cai sobre o casaco dela.

Em 1967, o Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, juntou Friedlander, Diane Arbus e Garry Winogrand na exposição New Documents (novos documentos). O curador John Szarkowski escreveu no texto da mostra, em 1967: “O objetivo deles não tem sido reformar a vida, mas conhecê-la.”

Bagunça com regra

O caos das fotos de Friedlander é calculado. Ele escolhe onde o poste corta: entre duas pessoas, dividindo a cena em metades, ou na frente de uma placa, apagando uma palavra.

Isso muda a leitura do defeito. Na foto de família, o poste na cabeça entra porque ninguém olhou o fundo. Na foto de Friedlander, entra porque ele olhou o fundo antes de olhar a pessoa.

O poste vira assunto quando o fotógrafo o escolhe; vira erro quando o fotógrafo nem o viu.

Friedlander recebeu a bolsa da Fundação MacArthur em 1990, prêmio americano dado a criadores de trabalho original. Nos anos 1990, trocou a Leica por uma Hasselblad SWC, câmera de filme quadrado com lente de campo largo, que põe ainda mais cidade no quadro.

Ele ainda publicava livros depois dos 85 anos. Em 2005, o MoMA abriu uma retrospectiva grande da obra dele, com centenas de fotos.

Para o retrato do dia a dia, a lição vale ao contrário. Friedlander provou que o fundo sempre entra na foto, queira o fotógrafo ou não. A diferença está em quem decide onde ele entra.

 

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III  Real ou Feito

Feito, e o poste sem base

Feito. A mulher, a calçada e o poste saíram de um gerador de imagens por computador, e a própria rua conta a origem.

Primeira pista: o poste não pisa no chão. Na borda inferior, onde a calçada aparece desfocada, a coluna de concreto some antes de tocar o piso. Poste real tem base, caixa de concreto ou ao menos uma sombra.

Segunda pista: os fios terminam no ar. Os cabos saem do topo e se apagam a meio caminho, sem chegar a outro poste nem a uma casa.

Terceira pista: a gola do casaco. A costura muda de lado entre o ombro esquerdo e o direito, e um dos botões se funde ao tecido sem borda.

O defeito do poste, curiosamente, está ali por encomenda. A descrição pedia a coluna saindo da cabeça, e o gerador obedeceu.

Para refazer a cena com uma câmera de verdade, bastam um celular, uma pessoa e uma rua com postes.

1. Escolha um poste e peça para a pessoa ficar uns cinco metros à frente dele, na mesma linha.

2. Afaste-se dois metros dela e enquadre do peito para cima, com o poste atrás da cabeça.

3. Faça a primeira foto sem mudar nada.

4. Dê dois passos para a esquerda, mantendo a altura do celular, e gire o corpo até ela voltar ao centro.

5. Faça a segunda foto e repita do lado direito, para ter três versões.

Ponha as três lado a lado. Na primeira, a linha cinza sai do cabelo. Nas outras, ela deve aparecer entre o ombro e a borda do quadro.

Se o poste continuar perto do rosto, a pessoa está perto demais dele. Peça para ela andar mais três metros à frente e repita: quanto maior a distância entre os dois, menos passos a correção pede.

Com árvore, a regra é igual, mas o galho pode estar mais baixo que a cabeça. Nesse caso, um passo para o lado e meio agachamento resolvem juntos.

Olhe a borda da cabeça antes do rosto, e o fundo para de crescer no cabelo.

Teste no próximo passeio: fotografe a mesma pessoa diante de um poste, parada e depois com dois passos para o lado. Meça com o dedo na tela a distância entre o poste e a orelha; na primeira, espere zero, e na segunda, a largura de um rosto ou mais.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Que título levou a coleção de 1976 em que Lee Friedlander fotografou estátuas de praça cortadas por postes e placas?

★ RARO

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