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ED 056

1 leitor escolheu Ângulo do movimento. Sai em 03/10.

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Areia seca devolve 40% do sol no seu rosto

Ao meio-dia, a praia faz papel de rebatedor e apaga a sombra do queixo; o asfalto devolve perto de 10% e enterra o olho

Mulher ao meio-dia numa praia de areia clara, rosto iluminado por baixo pela luz rebatida.

Meio-dia na praia, luz subindo da areia

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Sol a pino enterra os olhos. Numa praia de areia seca, ao meio-dia, o mesmo sol devolve o olhar inteiro ao rosto, e o responsável é o chão.

A regra vale para quase todo retrato ao ar livre. Com o sol perto da vertical, a luz bate de cima, a testa e as sobrancelhas fazem aba, e as órbitas dos olhos ficam escuras. Debaixo do nariz nasce um triângulo preto, e o queixo projeta uma faixa de sombra sobre o pescoço.

Fotógrafo de casamento conhece o resultado de cor e costuma fugir dele: marca a sessão para o fim da tarde ou arrasta os noivos para a sombra de uma árvore.

O chão muda a conta. Toda superfície devolve uma parte da luz que recebe, e o nome técnico dessa fração é albedo (a porcentagem da luz que volta da superfície para o ar). Neve fresca devolve quase tudo, e mar calmo com o sol alto devolve pouco.

O climatologista Timothy Oke, da Universidade da Colúmbia Britânica, reuniu essas medidas no livro Boundary Layer Climates (Climas da Camada Limite), na edição de 1987. Na tabela dele, a areia seca devolve de 35% a 45% da luz do sol. O asfalto devolve de 5% a 20%, e o asfalto escuro fica na faixa de baixo, perto de 10%.

Na prática, a praia inteira vira um rebatedor, o painel claro que o fotógrafo aponta para o rosto para clarear a sombra. Só que esse rebatedor tem o tamanho da praia e fica abaixo do queixo, exatamente onde a sombra do meio-dia se instala.

Numa rua asfaltada, com o mesmo sol e o mesmo rosto, o chão devolve uma fração pequena e a sombra fica onde o sol a pôs. Pelos números de Oke, a areia seca manda para o rosto até 4 vezes mais luz do que o asfalto escuro.

A imagem que abre esta edição mostra um rosto nessa luz de praia, e a faixa seguinte aponta onde a areia trabalhou.

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I  O Clique de Hoje

Luz que sobe da areia

O clique escolhido é a imagem que abre esta edição: uma mulher de uns trinta anos, de pé numa praia de areia clara, ao meio-dia, olhando para a lente com o rosto inteiro iluminado. O céu está limpo e o sol quase não faz sombra no chão em volta dos pés dela.

A sombra curta nos pés confirma a hora. Com o sol perto do alto do céu, o corpo projeta uma mancha escura pequena, quase um círculo debaixo dela. Pela regra do meio-dia, o rosto deveria sair com os olhos em buracos escuros.

Os olhos saem claros. A íris aparece com cor, a pálpebra de baixo tem luz e o branco dos olhos brilha. A luz que chega ali não vem do sol direto: vem de baixo, rebatida pela areia, e entra por baixo da aba que a testa forma.

O mesmo acontece debaixo do queixo. Num retrato de rua ao meio-dia, a mandíbula desenha uma linha dura e o pescoço afunda no escuro. Na imagem de abertura, o pescoço tem quase o mesmo tom da bochecha, e a linha da mandíbula aparece como uma passagem suave.

O sol desenha a sombra de cima. A areia apaga a sombra por baixo.

Fotógrafo mede luz em pontos, que na câmera aparecem como stops (cada ponto dobra ou corta pela metade a luz que chega ao sensor). Quatro vezes mais luz rebatida equivale a 2 pontos a mais subindo para o rosto. Na foto, a diferença separa uma sombra que vira preto puro de uma sombra em que se enxerga a pele.

A areia cobra um preço. Ela rebate luz também para dentro dos olhos de quem posa, e o rosto sob sol a pino na praia tende a apertar as pálpebras. Na imagem de abertura, os olhos estão abertos sem esforço, detalhe que a terceira faixa examina.

A cor da luz também muda. Areia amarelada rebate luz levemente quente, e a pele ganha um tom dourado por baixo que o asfalto cinza não daria. Areia muito branca, de quartzo quase puro, rebate uma luz mais neutra e mais forte.

Quem fotografa na praia usa o efeito de propósito: posiciona a pessoa sobre a faixa mais seca e clara da areia, onde o chão devolve mais. Areia molhada, perto da água, escurece e rebate bem menos, e o rosto volta a ganhar sombra.

 
 

II  Quem Apertou

O climatologista das tabelas

Nenhuma pessoa apertou o disparador da imagem de abertura: ela foi gerada por um modelo de imagem, a partir de uma descrição escrita pela redação da Fotografia do Dia, para mostrar um rosto ao meio-dia iluminado por baixo pela areia. Os números que a imagem ilustra, porém, têm dono.

Timothy Oke, climatologista nascido na Inglaterra, fez a carreira na Universidade da Colúmbia Britânica, em Vancouver, estudando como o chão da cidade esquenta e esfria. Ele é um dos nomes centrais no estudo das ilhas de calor urbanas, os bairros que ficam mais quentes do que o campo em volta.

Para explicar por que um estacionamento esquenta mais do que um gramado, Oke precisava saber quanto de sol cada superfície devolve e quanto guarda. O livro Boundary Layer Climates, publicado em 1978 e revisto em 1987, reúne essas medidas numa tabela que ainda circula em aulas de geografia e arquitetura.

A tabela não foi feita para fotógrafos. O interesse de Oke era calor: a luz que o chão devolve é luz que ele deixou de absorver. O asfalto escuro, que devolve pouco, guarda o resto em forma de calor, e por esse motivo queima a sola do pé no verão.

A mesma conta serve para a câmera. A luz que a areia devolve sai em todas as direções, e parte dela sobe para o rosto de quem está de pé. A luz que o asfalto guarda vira calor e não chega ao retrato.

Chão escuro guarda o sol em forma de calor. Chão claro manda o sol de volta para o rosto.

Os valores de Oke vêm em faixas, e por um motivo concreto. A mesma areia devolve mais luz seca do que molhada, mais com o sol alto do que baixo e mais quando o grão é claro. O asfalto também muda com os anos: sai escuro da obra e desbota com sol e poeira, e o asfalto velho devolve mais do que o recém-colocado.

A edição de 1987 segue como a versão mais citada da tabela. Uma obra ampliada, Urban Climates (Climas Urbanos), saiu em 2017, escrita por Oke com os geógrafos Gerald Mills, Andreas Christen e James Voogt.

Fica uma ressalva que a tabela não resolve sozinha: ela mede a luz do sol inteira, que inclui o infravermelho (a faixa de calor que o olho não vê), e não só a parte que a câmera enxerga. Para areia clara, as duas medidas andam próximas, e o número de Oke serve de boa aproximação para o retrato, sem ser uma medida feita com câmera.

 

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III  Real ou Feito

Feito, e o olho que não aperta

Feito. A imagem de abertura saiu de um modelo gerador, e o próprio rosto entrega as pistas.

O primeiro sinal está nos olhos. A mulher encara a lente com as pálpebras relaxadas sob sol a pino, com a areia jogando luz de baixo. Na praia real, ao meio-dia, quase todo mundo aperta os olhos; fotógrafos de moda contornam pedindo que a pessoa feche os olhos e abra só na contagem, e disparam logo em seguida.

O segundo sinal está na sombra do nariz. Com o sol no alto, até a areia mais clara deixa uma sombra pequena e escura logo abaixo da ponta do nariz, porque ali a luz de baixo não chega por inteiro. Na imagem de abertura, essa sombra quase some, como se houvesse um rebatedor de estúdio colado no peito.

O terceiro sinal está no brilho da pele. Luz rebatida pela areia é larga e macia, mas o sol direto continua batendo de cima: testa, nariz e ombros ganham reflexo forte e às vezes estouram para o branco. A imagem mostra a pele uniforme, sem ponto estourado.

O quarto sinal está no chão. Os grãos aparecem todos iguais, sem pegada, sem concha e sem a marca de onde a pessoa pisou para chegar ali.

A física, por outro lado, está certa. O modelo desenhou o pescoço claro e a mandíbula suave, o efeito que a areia seca produz de verdade. O erro está na dose: a imagem mostra a areia devolvendo mais luz do que a tabela de Oke permite.

1. Ao meio-dia de sol, fotografe o mesmo rosto duas vezes com o celular: uma com a pessoa de pé sobre asfalto, outra sobre areia seca ou um lençol branco estendido no chão.

2. Mantenha a mesma distância e o mesmo ângulo, com a pessoa olhando para a lente.

3. Amplie as duas fotos e compare a sombra debaixo do queixo e dentro das órbitas.

Asfalto devolve pouco e enterra o olho. Areia seca devolve até 4 vezes mais e acende o rosto por baixo.

"Quantos retratos seus de meio-dia teriam salvado os olhos com um chão mais claro debaixo dos pés?"

Teste hoje: ao meio-dia, fotografe um rosto sobre o asfalto e depois sobre um lençol branco estendido no chão. Espere ver a sombra do queixo clarear e a cor dos olhos aparecer na segunda foto.

 
 

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Quiz da edição

Pela tabela do climatologista Timothy Oke, qual fração do sol a areia seca devolve ao rosto?

A5% a 20%
B60% a 75%
C35% a 45%
D90% a 100%

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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