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Acima de 1/250, o flash corta a base da foto

A cortina do obturador ainda cobre parte do sensor quando o flash dispara, e 1/200 com f/11 apaga a faixa escura

Retrato ao sol com flash e faixa escura na base do quadro.

Flash a 1/1000 e a faixa escura no queixo

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C om flash, o obturador nunca passa da velocidade de sincronismo. Num meio-dia de sol, para escurecer o céu, o fotógrafo passou, e a base da foto saiu preta.

A velocidade de sincronismo (o tempo mais curto em que o sensor fica todo exposto de uma vez) aparece no manual de quase toda câmera com obturador de cortina. Na Canon EOS 5D Mark IV, o manual da fabricante marca 1/200 de segundo. Na Nikon D850, 1/250.

O limite nasce da mecânica. Dentro da câmera, duas lâminas correm na frente do sensor: a primeira cortina abre caminho, a segunda vem atrás e fecha. Em velocidades lentas, a primeira chega ao fim do percurso antes de a segunda partir, e o sensor fica descoberto por inteiro durante um instante.

Acima do sincronismo, a segunda cortina parte antes de a primeira terminar. Entre as duas sobra só uma fenda, uma tira aberta que varre o sensor de ponta a ponta.

O flash não acompanha a fenda. O clarão de um flash de sapata dura frações minúsculas de segundo, muito menos do que o tempo do percurso das cortinas. Ele dispara quando a primeira cortina chega ao fim, e nesse instante uma parte do sensor já está coberta de novo.

A parte coberta não recebe a luz do flash. Na foto, ela vira uma faixa escura, de borda reta, colada a um dos lados do quadro. Na maioria das câmeras, com a máquina na horizontal, a faixa sai na base.

O defeito engana porque a luz do sol continua entrando pela fenda. O céu sai certo, o fundo sai certo, e só o rosto iluminado pelo flash perde o pedaço de baixo.

A solução ocupa dois botões. A velocidade volta para 1/200, dentro do limite, e o diafragma fecha em f/11 para segurar o excesso de sol que a velocidade mais lenta deixaria entrar.

A imagem do topo traz o defeito inteiro num retrato só, e a primeira seção lê a faixa, do queixo ao ombro.

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I  O Clique de Hoje

A faixa preta no queixo

A resposta de ontem

Que apelido Tijion Esho deu às selfies filtradas no consultório?

Snapchat dysmorphia, a dismorfia do Snapchat. Tijion Esho, médico de estética em Londres, cunhou o apelido em 2018, e no mesmo ano Neelam Vashi, da Universidade de Boston, levou o termo à JAMA Facial Plastic Surgery para alertar que o filtro virava molde de cirurgia.

A imagem do topo mostra uma mulher ao sol de meio-dia, com o rosto aceso pelo flash e uma faixa escura cobrindo a base do quadro, do queixo para baixo.

O céu está azul fundo, sem estouro. O fotógrafo subiu a velocidade para escurecer o fundo e ganhar contraste, uma escolha comum em retrato ao ar livre.

A faixa tem borda reta e horizontal. Sombra de árvore ou de chapéu teria borda mole e irregular; a borda reta denuncia uma peça da própria câmera.

Dentro da faixa, o ombro e o colo ainda aparecem, só que mais escuros. A luz do sol chegou ali pela fenda; a luz do flash não chegou.

Quanto da foto some

O tamanho da faixa cresce com a velocidade. Um pouco acima do limite, ela come só uma tira fina da base. Em 1/1000 de segundo, a fenda fica tão estreita que o flash acende só uma faixa do quadro, e o resto da foto sai escuro.

A conta mostra o desperdício. Nas câmeras citadas, as cortinas levam algo perto de 1/250 de segundo para cruzar o sensor; acima dessa velocidade, nenhum instante deixa o sensor descoberto por inteiro.

A borda reta na foto é a sombra da segunda cortina, congelada pelo flash.

Por que f/11 resolve o sol

Voltar a 1/200 deixa entrar mais luz ambiente. Sem compensação, o céu clareia e o fundo estoura.

A regra do sol 16, ensinada em manuais de fotografia desde a era do filme, dá a exposição de um dia de sol aberto: f/16, com a velocidade igual ao inverso da sensibilidade. Com ISO 100 (a sensibilidade mais baixa da maioria das câmeras), fica f/16 a 1/100.

Em 1/200, o tempo cai pela metade, e o diafragma abre um ponto, para f/11. A exposição total do céu fica igual à da regra, e o flash ilumina o quadro inteiro.

O fotômetro da câmera ajuda a conferir. Com o flash desligado, uma foto de teste a 1/200 e f/11 deve mostrar o céu no tom certo e o rosto um pouco escuro, à sombra do próprio cabelo. Ligado o flash, o rosto acende e o céu fica onde estava.

O flash precisa de mais potência em f/11 do que em f/4, porque o diafragma fechado também corta a luz dele. Num rosto a dois metros, um flash de sapata em potência cheia costuma dar conta.

 
 

II  Quem Apertou

O inventor da cortina rápida

O fotógrafo alemão Ottomar Anschütz, nascido em 1846 em Lissa, na Prússia, construiu o obturador de cortina que antecede as lâminas das câmeras de hoje.

Anschütz queria congelar animais e soldados em movimento, algo impossível com as tampas de lente e as portinholas lentas da época.

A solução dele colocou uma cortina de tecido com uma fenda bem perto da chapa fotográfica. A fenda corria na frente da chapa e expunha cada faixa por uma fração curta de segundo.

A patente de 1888

Anschütz registrou o obturador de plano focal (a cortina que corre colada ao filme) em 1888, na Alemanha. A empresa berlinense C. P. Goerz passou a fabricar a câmera dele, vendida como Goerz Anschütz.

O defeito da faixa escura nasceu junto com a ideia que permitiu congelar uma asa.

A fenda móvel resolveu o movimento, mas criou a regra que pesa sobre o flash até hoje. Uma fenda estreita nunca expõe a chapa inteira ao mesmo tempo, e qualquer luz curta acende só o pedaço que passa na frente dela.

As fotos de Anschütz circularam pela Europa nos anos 1880 e ganharam medalhas em exposições. Ele seguiu adiante com o Taquiscópio, um aparelho de 1887 que girava as fotos em sequência e dava ao público a ilusão de movimento, alguns anos antes do cinema dos irmãos Lumière.

No tempo de Anschütz, o problema não existia na prática. O flash de magnésio queimava devagar demais para ficar menor do que o percurso da cortina.

Quando o flash ficou curto demais

O conflito apareceu com o flash eletrônico, de clarão curto. Os fabricantes passaram a gravar na câmera a velocidade máxima de sincronismo e um símbolo de raio no seletor.

As lâminas metálicas de percurso vertical, adotadas nas câmeras reflex a partir dos anos 1960, encurtaram o percurso e empurraram o limite para 1/125, depois 1/250.

A Olympus lançou, em 1986, a OM-4Ti com o sistema Super FP, um flash que pisca muitas vezes em sequência rápida e ilumina a fenda inteira durante o percurso. O recurso, hoje chamado sincronismo de alta velocidade, cobra caro: a luz do flash cai muito, e o alcance encolhe.

Diante do custo, o atalho mais barato continua o mesmo. Em vez de um flash mais caro, a câmera volta para dentro do limite e o diafragma faz o trabalho de segurar o sol.

 

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III  Real ou Feito

Feito, e a sombra sem corpo

Feito. Ninguém posou nem acionou câmera para o retrato da abertura: o quadro saiu de um programa de imagem, guiado por um roteiro escrito pela redação, e três detalhes entregam a montagem.

Primeira pista: o ombro escurece demais. Numa foto real, a parte coberta pela cortina perde só a luz do flash e guarda a do sol, então o ombro sai apenas um pouco mais escuro. No quadro gerado, o ombro fica quase preto, como se o sol também tivesse sumido ali.

Segunda pista: a borda tem degradê. A segunda cortina, congelada por um clarão curtíssimo, deixa borda quase cortada à faca. A borda da imagem se esfuma por vários dedos.

Terceira pista: a sombra do queixo aponta para o lado errado. O flash está na câmera, de frente, e o sol vem de cima. No retrato, a sombra do queixo cai para a direita, como se houvesse uma terceira fonte de luz.

O céu escuro, curiosamente, está bem resolvido. O pedido descrevia um meio-dia com velocidade alta, e o gerador acertou o azul fundo e o rosto aceso.

Para ver a faixa na própria câmera, bastam um flash de sapata, um dia de sol e uma pessoa ou objeto a dois metros.

1. Ponha a câmera no modo manual, com ISO 100.

2. Fotografe o objeto com flash a 1/1000 de segundo e f/4.

3. Repita a 1/500, depois a 1/250, sem mexer no resto.

4. Volte para 1/200, feche em f/11 e faça a última foto.

5. Compare as quatro fotos na tela, na ordem em que saíram.

Nas câmeras com obturador eletrônico total, a leitura do sensor é linha a linha, e a faixa aparece até em velocidades mais lentas. Para este teste, o obturador mecânico precisa estar ligado no menu.

Algumas câmeras travam a velocidade no limite assim que o flash é ligado na sapata. Nesse caso, um rádio-disparador genérico, que a câmera não reconhece, libera as velocidades acima do sincronismo.

O teste também ensina a ler o próprio equipamento. Se a faixa aparecer já em 1/250, o limite da câmera é 1/200, e o número vale anotar num pedaço de fita no corpo da máquina.

Dentro do limite, o flash pinta o quadro inteiro; fora dele, pinta só a fenda.

Teste hoje: faça as quatro fotos do roteiro e meça na tela a altura da faixa escura em cada uma; espere a faixa maior em 1/1000, menor em 1/500 e nenhuma em 1/200 com f/11.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Que ave Ottomar Anschütz fotografou em pleno voo, em 1884, nas imagens instantâneas que o tornaram famoso?

 
 
Quiz da edição

Depois de voltar o obturador para 1/200 (dentro do sincronismo), em que abertura o fotógrafo fecha o diafragma para segurar o sol e devolver o céu sem estourar?

Af/5.6
Bf/8
Cf/11
Df/16

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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