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Abaixe a câmera a 1,10 m e o parquinho volta ao fundo

Da altura do adulto, a cabeça cresce e o piso toma o quadro; na linha do olho dela, o rosto ganha o brinquedo atrás

Menina no escorregador, fotografada na altura do olho.

Lente a 1,10 m, balanço desfocado atrás

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Retrato se faz com a lente na altura do olho de quem posa. Com criança, quase todo adulto quebra a regra sem notar: fotografa de pé, com o celular diante do próprio rosto, a uns 1,60 metro do chão.

A menina de sete anos está meio metro abaixo da câmera. A lente desce na diagonal até ela, e a foto registra a cena como o adulto a enxerga: o topo da cabeça perto, os pés longe, a areia ocupando metade do quadro.

Perto da lente, tudo cresce. A testa e o cabelo estão mais próximos do aparelho que o queixo e os sapatos, e saem maiores na imagem. A criança vira uma cabeça grande sobre um corpo curto, com os olhos virados para cima.

O fundo também muda. Visto do alto, o que aparece atrás da menina é areia, borracha do piso, a ponta do tênis de alguém. O escorregador, o balanço e as árvores, que contavam onde ela estava, somem acima da borda do quadro.

A correção custa um movimento de joelho. Agachar até a lente chegar perto de 1,10 metro, a altura aproximada do olho de uma criança dessa idade, põe câmera e rosto na mesma linha. A cabeça volta ao tamanho real e o horizonte do parquinho sobe para trás dela.

Fotógrafos de família repetem a orientação há décadas, e ela serve também para cachorro, gato e qualquer modelo baixo. A diferença aparece até no celular mais simples, sem lente especial nem aplicativo.

Há ainda um efeito menos óbvio. De cima, o adulto fotografa a criança olhando para ele, pedindo atenção. Na altura dela, a câmera entra no mundo do brinquedo, e o olhar da menina pode seguir para o lado, para o amigo, para a fila do balanço.

As três partes a seguir examinam a imagem do topo, contam a história de uma fotógrafa nova-iorquina que passou anos registrando crianças nas calçadas e mostram como perceber se a foto saiu mesmo de uma câmera.

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I  O Clique de Hoje

Meio metro de diferença

A resposta de ontem

Que peça mantém o foco preso enquanto a zoom gira?

É o grupo compensador, um conjunto de lentes que desliza junto com o grupo variador, guiado por um trilho em espiral dentro do cano, e corrige a posição da imagem a cada milímetro do giro. Por isso a zoom se chama parfocal. Lentes varifocais não têm esse ajuste e perdem o foco no giro, borrando até o centro do zoom arrastado.

A imagem do topo mostra uma menina de uns seis anos sentada na borda de um escorregador vermelho, fotografada da altura do rosto dela, com um balanço e duas árvores desfocados atrás.

O olho da lente está alinhado com os olhos dela, e assim queixo, testa e orelhas aparecem nas proporções reais, e a linha do horizonte cruza o quadro na altura dos ombros.

O número de 1,10 metro tem origem conhecida. A Organização Mundial da Saúde publicou em 2007 uma referência de crescimento infantil que põe a altura mediana de um menino de sete anos perto de 1,22 metro. Os olhos ficam pouco mais de dez centímetros abaixo do topo da cabeça.

Com uma criança de quatro anos, o olho desce para baixo de um metro, e o fotógrafo precisa sentar no chão, não só dobrar os joelhos.

A explicação da cabeça grande é distância. Uma lente desenha cada parte da cena menor quanto mais longe ela estiver. De pé, com o celular a 60 centímetros do cabelo da criança e a 1,60 metro dos sapatos, o cabelo fica quase três vezes mais perto. A cabeça incha, as pernas encolhem.

O celular agrava o quadro. A câmera principal dele costuma ser uma grande-angular (lente de campo largo, feita para caber muita cena no quadro), e ela exagera a diferença entre o que está perto e o que está longe. O adulto que se inclina para enquadrar chega ainda mais perto da testa.

A lente não mente sobre o tamanho; ela mede a distância.

Agachado, o fotógrafo põe a testa e os pés quase à mesma distância da lente. As proporções se igualam e o corpo inteiro cabe sem deformação.

O fundo segue a mesma lógica. A câmera apontada para baixo enquadra o piso. Nivelada, ela aponta para o horizonte, e o que está a cinco ou dez metros atrás da criança entra no quadro: o escorregador, a cerca, as copas.

Na imagem do topo, a abertura grande (o diafragma aberto, que desfoca o fundo) transforma o balanço em mancha de cor. Mesmo assim, ele se reconhece pela silhueta, e o fundo continua dizendo onde a menina estava.

Há um custo. Agachar cansa, a calça suja e a criança se mexe enquanto o adulto desce. Quem fotografa filhos com frequência costuma ajoelhar no chão e ficar ali, ou sentar no banco do parquinho, que já deixa a lente perto da altura certa.

Outra saída é levar a criança para cima. Sentada no degrau mais alto do trepa-trepa, ela sobe até a altura do adulto de pé, e a foto sai nivelada sem ninguém dobrar o joelho.

 
 

II  Quem Apertou

Helen Levitt na calçada

Nenhuma câmera produziu a menina do escorregador: ela saiu de um gerador de imagens, montada a partir de um roteiro da redação. O ponto de vista que a imagem copia tem uma referência antiga nas ruas de Nova York.

Helen Levitt nasceu no Brooklyn em 1913 e começou a fotografar no fim dos anos 1930 com uma Leica, câmera alemã pequena, de filme de 35 milímetros. O assunto preferido dela estava na calçada: crianças brincando em East Harlem e no Lower East Side, bairros pobres de Manhattan.

Naquela época, a rua era o parquinho. Prédios sem quintal empurravam os meninos para a escada da frente, para o hidrante aberto no verão, para os desenhos de giz no muro.

Levitt fotografava de perto e de baixo. Muitas imagens dela mostram as crianças na linha do olho, ou mais baixo ainda, com o muro e a rua atrás. Os adultos aparecem como pernas, portas e janelas.

Ela evitava posar os modelos. Esperava a brincadeira seguir e apertava o disparador quando ninguém olhava para a câmera, que já vinha na altura certa antes de ela chegar perto.

Ela também fotografou os desenhos de giz que as crianças deixavam nas paredes e nas calçadas: casas, rostos, recados com erros de grafia. O registro guardou uma arte que a chuva apagava em dias.

Em 1943, o Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, abriu a exposição Helen Levitt: Photographs of Children (fotografias de crianças), a primeira individual dela.

Em 1965 saiu o livro A Way of Seeing (um modo de ver), com texto do escritor James Agee, amigo dela, escrito ainda nos anos 1940.

Com Agee e a pintora Janice Loeb, Levitt filmou In the Street (na rua), um curta sem diálogos sobre as brincadeiras de East Harlem, lançado em 1952.

Nas fotos de Levitt, a criança nunca é olhada de cima: ela é dona da própria rua.

A fotógrafa trabalhou em Nova York até a velhice e passou a usar filme colorido nos anos 1970. Viveu até 2009, aos 95 anos, em Manhattan.

A lição dela para a foto de família é concreta. A altura da câmera decide quem manda na cena: de cima, manda o adulto; no nível da criança, manda a brincadeira.

 

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III  Real ou Feito

Feito, e as correntes soltas

Feito. A menina, o escorregador e o balanço saíram de um gerador de imagens, e o próprio parquinho entrega a origem.

Primeira pista: as correntes do balanço não chegam à barra. No fundo desfocado, as duas correntes sobem e se dissolvem no ar antes do travessão de metal. Um balanço real pendura em algum lugar, mesmo fora de foco.

Segunda pista: as sombras discordam. A sombra da menina cai para a direita, a do escorregador cai para trás. Com um sol só no céu, todas apontam para o mesmo lado.

Terceira pista: a mão no corrimão. Os dedos se fundem ao metal na altura dos nós, sem a borda clara onde a pele encosta no tubo.

A altura da câmera, curiosamente, está certa. O gerador foi treinado com fotos de família publicadas, e a linha do olho é comum nelas.

Para fazer a versão verdadeira, bastam o celular e um parquinho.

1. Peça para a criança ficar no escorregador ou no balanço, sem posar.

2. Fique de pé e faça uma foto com o celular diante do seu rosto.

3. Ajoelhe até a lente ficar na linha dos olhos dela, perto de 1,10 metro do chão para uma criança de sete anos.

4. Segure o celular reto, sem inclinar para baixo, e faça a segunda foto.

5. Recue um passo e use o zoom de 2x, se houver, para afastar a lente da testa.

Ponha as duas fotos lado a lado na tela. Na primeira, veja quanto do quadro é chão. Na segunda, procure o escorregador atrás da cabeça.

Se o fundo continuar vazio na segunda foto, mude de posição: a criança fica entre você e o brinquedo mais alto, nunca de costas para a cerca.

Com bebê, a altura cai bastante. Deitado de bruços no tapete, o adulto alcança o olho de quem engatinha, e a sala ganha o sofá e a janela atrás do rosto.

Desça a câmera e o parquinho volta a caber atrás do rosto.

Teste no próximo passeio: faça duas fotos da mesma cena, de pé e ajoelhado. Conte quantos brinquedos aparecem atrás da criança em cada uma; de pé, espere zero ou um, ajoelhado, três ou mais.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Que peça de vidro presa à Leica deixava Helen Levitt fotografar as crianças sem ser notada?

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, qual altura aproximada é a recomendada pra fotografar uma criança de sete anos na linha do olho?

A0,60 metro
B1,10 metro
C1,60 metro
D1,22 metro

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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