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Nenhuma pessoa apertou o disparador da imagem de abertura: as duas esquinas foram geradas por um modelo de imagem, a partir de uma descrição escrita pela redação da Fotografia do Dia. O quadro que a 35 imita no sensor menor, porém, tem dono: o francês Henri Cartier-Bresson, que olhou a rua por uma lente de 50 milímetros durante quase toda a carreira.
Cartier-Bresson nasceu em 1908, em Chanteloup-en-Brie, perto de Paris. Estudou pintura antes de fotografar, e em 1932 passou a usar uma Leica, câmera pequena que rodava o filme de cinema de 35 milímetros.
O formato da Leica tem origem conhecida. Oskar Barnack, engenheiro da fábrica alemã Leitz, dobrou o quadro do cinema, de 18 por 24 milímetros, e chegou aos 24 por 36 que hoje se chamam formato cheio. A Leica chegou às lojas em 1925, e o tamanho virou padrão.
A lente que acompanhava a Leica era uma de 50 milímetros, e Cartier-Bresson raramente a trocou. O 50 mostra a rua num ângulo próximo do que a pessoa enxerga quando presta atenção numa cena, sem a borda esticada de uma grande angular (lente de ângulo largo).
Em 1932, em Paris, ele fez Atrás da Estação Saint-Lazare: um homem salta sobre uma poça, e a sombra dele se repete na água. O quadro tem a largura típica do 50, sem o achatamento de uma teleobjetiva (lente longa que aproxima o fundo).
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Uma 35 no sensor APS-C devolve, quase milímetro a milímetro, o quadro que Cartier-Bresson enxergava pela Leica.
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Os 52 milímetros equivalentes ficam a 2 do 50 da Leica. Quem prende uma 35 numa câmera APS-C enquadra a esquina com a moldura da fotografia de rua francesa dos anos 1930.
A troca de papéis começou no digital. Quando a Nikon lançou a D1, em 1999, o sensor tinha cerca de 23,7 por 15,6 milímetros e fator 1,5. Fotógrafos que trocavam o filme pelo sensor descobriram que a 35 da bolsa enquadrava como o 50 de antes.
A 35 virou a lente normal (a que imita o ângulo do olho) dos corpos menores. Fabricantes passaram a vender lentes de 35 milímetros feitas só para APS-C, mais leves e baratas, com círculo de imagem do tamanho exato do sensor pequeno.
Cartier-Bresson fundou a agência Magnum em 1947, com Robert Capa, David Seymour e George Rodger. Largou a fotografia profissional nos anos 1970 para voltar ao desenho e viveu até 2004, aos 95 anos, em Montjustin, no sul da França.
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