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A lente de 35 que enquadra como 52 no sensor menor

O sensor menor corta o quadro por 1,5, e a ficha do arquivo grava a distância focal real e a equivalente

A mesma esquina fotografada com sensor cheio e sensor APS-C.

Mesma lente, mesma esquina, sensor menor

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Uma lente de 35 milímetros mostra um pedaço fixo do mundo. A regra vale até a lente trocar de corpo: presa numa câmera de sensor APS-C (o formato menor, de cerca de 23,5 por 15,6 milímetros), a mesma 35 enquadra como uma lente de 52.

A imagem que abre esta edição mostra a prova. Duas fotos da mesma esquina, tiradas do mesmo ponto da calçada, com a mesma lente. Na da esquerda cabem a banca de jornal, o poste e as duas fachadas. Na da direita, a banca ocupa quase o quadro inteiro e o poste sumiu pela borda.

Nenhum zoom girou. O fotógrafo não deu um passo. A lente desenha a mesma imagem nas duas câmeras; muda só o tamanho do retângulo que fica atrás dela para receber a luz.

O formato cheio mede 36 por 24 milímetros, o tamanho do quadro do filme de 35 milímetros que dominou a fotografia no século 20. O APS-C mede cerca de 23,5 por 15,6. A diagonal do primeiro tem 43,3 milímetros; a do segundo, perto de 28,2. Dividindo uma pela outra, sai o número que rege a edição inteira: 1,5.

O ofício chama esse número de fator de recorte (quantas vezes a diagonal do sensor menor cabe na do maior). Multiplicado pela distância focal, ele devolve a lente que daria o mesmo enquadramento no formato cheio. A conta: 35 vezes 1,5 dá 52,5, e a câmera arredonda para 52.

A câmera também não esconde a conta. A ficha que ela grava dentro de cada arquivo traz duas linhas: a distância focal real, 35 milímetros, e a equivalente, 52. Quem abre a ficha no celular ou no computador encontra os dois números lado a lado.

Para quem fotografa na rua, a diferença tem efeito prático. A esquina que cabia inteira no quadro perde as bordas, e o fotógrafo precisa recuar alguns passos para trazer o poste de volta. Recuar, porém, muda a cena: a banca fica menor e o fundo ganha peso.

A primeira seção mostra onde a luz se perde dentro da câmera, onde ler as duas linhas da ficha e por que a esquina da direita sai mais fechada com a lente parada no lugar.

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I  O Clique de Hoje

Dois retângulos atrás da mesma lente

O clique escolhido é a imagem que abre esta edição: a mesma esquina fotografada duas vezes com uma lente de 35 milímetros, primeiro num corpo de formato cheio e depois num corpo APS-C. A segunda foto mostra só o miolo da primeira.

A lente projeta atrás de si o círculo de imagem (a área iluminada que ela consegue formar com nitidez). Numa lente feita para formato cheio, esse círculo cobre com folga o retângulo de 36 por 24. O sensor APS-C, menor, fica no centro do círculo e recebe só a parte do meio.

O resto da luz cai fora do sensor, na parede interna da câmera, e se perde. Nada se amplia: a banca de jornal tem o mesmo tamanho em milímetros nos dois sensores. Muda a moldura em volta dela, mais estreita no APS-C.

Quando as duas fotos aparecem no mesmo tamanho de tela, a do sensor menor precisa ser ampliada 1,5 vez a mais para ocupar o mesmo espaço. A banca cresce na tela, e o olho lê o resultado como uma lente mais longa.

O sensor menor não aproxima a esquina: ele corta a borda da foto antes de ela existir.

A conta do ângulo confirma. Uma 35 no formato cheio cobre cerca de 54 graus na horizontal. A mesma 35 no APS-C cobre perto de 37 graus. Uma lente de 52 no formato cheio cobre 38 graus, um recorte quase idêntico.

A ficha do arquivo guarda a prova escrita. Ela se chama EXIF (a ficha técnica que a câmera salva dentro de cada imagem) e tem dois campos de lente. O campo FocalLength (distância focal) registra os 35 milímetros reais.

O segundo campo, FocalLengthIn35mmFilm (distância focal equivalente em filme de 35 milímetros), registra 52. A especificação Exif 2.2, publicada em 2002 pela associação japonesa de eletrônicos JEITA, criou esse campo para que o arquivo dissesse sozinho qual enquadramento a foto tem.

No celular, a ficha aparece ao deslizar a foto para cima na galeria ou ao tocar no ícone de informação. No computador, o painel de propriedades do arquivo mostra os valores. Alguns programas exibem só um deles; quando aparece 35 e o quadro parece fechado, a linha da equivalente está um campo abaixo.

A Canon usa um sensor APS-C um pouco menor, de cerca de 22,3 por 14,9 milímetros, com fator 1,6. Com a mesma 35, a ficha de uma Canon registra 56 como equivalente. O fator varia de marca para marca, e a ficha já traz o número certo de cada corpo.

 
 

II  Quem Apertou

Cartier-Bresson e o quadro do 50

Nenhuma pessoa apertou o disparador da imagem de abertura: as duas esquinas foram geradas por um modelo de imagem, a partir de uma descrição escrita pela redação da Fotografia do Dia. O quadro que a 35 imita no sensor menor, porém, tem dono: o francês Henri Cartier-Bresson, que olhou a rua por uma lente de 50 milímetros durante quase toda a carreira.

Cartier-Bresson nasceu em 1908, em Chanteloup-en-Brie, perto de Paris. Estudou pintura antes de fotografar, e em 1932 passou a usar uma Leica, câmera pequena que rodava o filme de cinema de 35 milímetros.

O formato da Leica tem origem conhecida. Oskar Barnack, engenheiro da fábrica alemã Leitz, dobrou o quadro do cinema, de 18 por 24 milímetros, e chegou aos 24 por 36 que hoje se chamam formato cheio. A Leica chegou às lojas em 1925, e o tamanho virou padrão.

A lente que acompanhava a Leica era uma de 50 milímetros, e Cartier-Bresson raramente a trocou. O 50 mostra a rua num ângulo próximo do que a pessoa enxerga quando presta atenção numa cena, sem a borda esticada de uma grande angular (lente de ângulo largo).

Em 1932, em Paris, ele fez Atrás da Estação Saint-Lazare: um homem salta sobre uma poça, e a sombra dele se repete na água. O quadro tem a largura típica do 50, sem o achatamento de uma teleobjetiva (lente longa que aproxima o fundo).

Uma 35 no sensor APS-C devolve, quase milímetro a milímetro, o quadro que Cartier-Bresson enxergava pela Leica.

Os 52 milímetros equivalentes ficam a 2 do 50 da Leica. Quem prende uma 35 numa câmera APS-C enquadra a esquina com a moldura da fotografia de rua francesa dos anos 1930.

A troca de papéis começou no digital. Quando a Nikon lançou a D1, em 1999, o sensor tinha cerca de 23,7 por 15,6 milímetros e fator 1,5. Fotógrafos que trocavam o filme pelo sensor descobriram que a 35 da bolsa enquadrava como o 50 de antes.

A 35 virou a lente normal (a que imita o ângulo do olho) dos corpos menores. Fabricantes passaram a vender lentes de 35 milímetros feitas só para APS-C, mais leves e baratas, com círculo de imagem do tamanho exato do sensor pequeno.

Cartier-Bresson fundou a agência Magnum em 1947, com Robert Capa, David Seymour e George Rodger. Largou a fotografia profissional nos anos 1970 para voltar ao desenho e viveu até 2004, aos 95 anos, em Montjustin, no sul da França.

 

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III  Real ou Feito

Feito, e a esquina que mudou de lugar

Feito. As duas esquinas de abertura saíram de um modelo gerador, e o próprio recorte denuncia a origem.

O primeiro sinal está no miolo. Uma foto APS-C feita do mesmo ponto com a mesma lente reproduz o centro da foto de formato cheio, com as mesmas linhas no mesmo lugar. Na imagem, a banca da direita está um pouco girada em relação à da esquerda, e a placa da rua mudou de altura.

O segundo sinal está na perspectiva. Com a câmera parada, a inclinação das fachadas não depende do sensor: as linhas do prédio apontam para o mesmo ponto nas duas fotos. Na imagem, a fachada da direita parece vista de mais perto, como se o fotógrafo tivesse andado até a banca.

O terceiro sinal falta no arquivo. Nenhuma das duas metades traz EXIF, nem a linha dos 35 milímetros reais nem a dos 52 equivalentes, porque nenhuma passou por um sensor.

Para ver o recorte com o próprio equipamento, o teste pede uma câmera de formato cheio com modo de recorte APS-C, que a Nikon chama de DX.

1. Monte uma lente de 35 milímetros, ou trave o zoom em 35.

2. Do mesmo ponto da calçada, fotografe uma esquina com o modo de recorte desligado e depois ligado.

3. Abra a ficha das duas fotos e anote a distância focal equivalente de cada uma.

4. Ponha as duas lado a lado e marque o que saiu pelas bordas.

Sem câmera de formato cheio, o celular serve para a leitura da ficha. A câmera principal de muitos aparelhos grava a distância focal real, de poucos milímetros, ao lado da equivalente, perto de 24 a 26, porque o sensor do telefone é bem menor que o APS-C.

Lente parada e sensor menor dão o quadro de uma lente mais longa, sem mexer na perspectiva.

“Quantas das suas fotos fechadas demais eram só a lente certa no sensor menor?”

Teste hoje: fotografe a mesma esquina com o modo de recorte desligado e ligado, sem sair do lugar. Abra as duas fichas: espere 35 e 52 na linha da equivalente, e um quadro com cerca de dois terços da largura do primeiro.

 
 

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Quiz da edição

Segundo a ficha EXIF citada na edição, qual distância focal equivalente a câmera grava para uma lente de 35 milímetros presa num sensor APS-C de fator 1,5?

A50 milímetros
B56 milímetros
C52 milímetros
D37 milímetros

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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