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A lente de 120 graus e a mancha escura no canto da foto

A grande angular do celular enxerga a ponta do dedo que a mão nem sente, e segurar pela metade de baixo limpa o canto

Celular na grande angular com a ponta do dedo sobre a lente.

O dedo que virou mancha no canto

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A lente fotografa tudo o que cabe no ângulo dela, inclusive o que a mão não sente. Num mirante, com o vale inteiro aberto à frente, uma pessoa trocou o celular para a grande angular e levou para casa uma paisagem com uma mancha escura no canto de baixo.

A imagem que abre esta edição mostra as duas pontas do erro. À esquerda, a pessoa de costas, celular deitado nas duas mãos, a ponta do indicador encostada na borda do bloco de câmeras. À direita, a foto que saiu: montanhas, céu limpo e, no canto inferior, uma meia-lua escura e borrada.

A mancha tem forma conhecida. Ela não tem contorno, puxa para o marrom ou para o rosado e some aos poucos em direção ao centro. O dedo estava tão perto da lente que ela nem conseguiu focar nele: gravou só a sombra dele, como uma nuvem baixa colada no vidro.

A mão erra porque calcula pela lente principal. Na câmera padrão do celular, o ângulo de visão é parecido com o de uma lente de 26 milímetros em câmera de filme (a medida que fotógrafos usam para comparar o quanto cada lente abarca). Nesse ângulo, o dedo apoiado no canto fica de fora.

A grande angular muda a conta. Ela costuma equivaler a 13 milímetros, a metade da principal, e por isso o ângulo quase dobra. O dedo que ficava fora do quadro passa a ocupar a borda.

A tela do celular ajuda pouco. O visor mostra a cena encolhida, num retângulo de poucos centímetros, e o olho procura o vale, nunca o canto. A mancha só aparece no tamanho real quando a foto é aberta grande, já longe do mirante.

O defeito cresce com o jeito de segurar. Quem pega o celular deitado, com uma mão em cada ponta, encosta os dedos justamente na quina onde ficam as lentes. Em muitos modelos, o bloco de câmeras mora no canto superior esquerdo, e o indicador da mão esquerda cai ali sem que a pessoa perceba.

A primeira seção mostra por que a lente larga enxerga tão longe para os lados, onde exatamente a ponta do dedo entra e qual pegada deixa o canto livre.

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I  O Clique de Hoje

O canto que a mão não vê

O clique escolhido é a imagem que abre esta edição: uma paisagem de mirante feita na grande angular do celular, com a ponta do dedo virando mancha no canto de baixo. A cena junta o gesto e o defeito num quadro só.

A grande angular (a lente que abarca uma área bem mais larga que a do olho parado) vê o mundo como um leque. A Apple anunciou, em setembro de 2019, no lançamento do iPhone 11, que a câmera ultra-angular do aparelho cobria um campo de visão de 120 graus. Outras marcas seguiram com números parecidos.

Cento e vinte graus é um terço de uma volta inteira. Com o celular na altura do peito, o leque dessa lente alcança quase tudo o que está à frente, dos dois lados, e chega perto do corpo de quem segura. O dedo pousado na quina do aparelho fica dentro desse leque.

A ponta do dedo entra pela borda porque está colada na lente. A poucos milímetros do vidro, ela ocupa uma fatia enorme do ângulo, mesmo sendo pequena. A mesma ponta, a um palmo de distância, caberia num cantinho do quadro.

A lente larga enxerga os lados que a mão trata como bastidor.

A mancha cai no canto de baixo por causa da óptica. A lente inverte a imagem no caminho até o sensor (a peça que grava a luz), e o aparelho desvira tudo na hora de mostrar. O dedo que encosta por cima da lente, com o celular deitado, aparece embaixo na foto.

A forma borrada também tem explicação. Toda lente tem uma distância mínima de foco, o ponto mais perto em que ela ainda desenha nitidez. A grande angular do celular foca a poucos centímetros, mas o dedo está a milímetros. O que fica nesse vão sai como sombra macia, sem contorno.

A correção mora na pegada. Segurar o aparelho pela metade de baixo, com os dedos longe da quina das lentes, deixa o canto livre. Com o celular deitado, a mão do lado das câmeras desce para a borda inferior e apoia o aparelho por baixo, como uma bandeja.

A outra mão cuida do disparo. O polegar toca o botão da tela ou aperta o botão de volume, que na maioria dos aparelhos também fotografa. Assim nenhum dedo precisa subir até o topo para firmar a foto.

Em pé, com o celular na vertical, a regra continua valendo. As lentes ficam no alto, e a mão que segura pelo meio ou pela base mantém o indicador abaixo do bloco de câmeras. Quem apoia o dedo atrás, no topo, para não deixar o aparelho cair, deve descer esse apoio dois dedos.

 
 

II  Quem Apertou

A esfera cheia de água

Nenhuma pessoa apertou o disparador da imagem de abertura: o mirante, a mão e a foto com a mancha foram gerados por um modelo de imagem, a partir de uma descrição escrita pela redação da Fotografia do Dia. A ideia de pôr 120 graus numa só foto, porém, tem dono antigo: o fotógrafo inglês Thomas Sutton, que patenteou uma lente panorâmica em 1859.

Sutton vivia na ilha de Jersey, no canal da Mancha, e editava uma revista técnica de fotografia, a Photographic Notes. Ele queria registrar paisagens largas sem precisar emendar várias chapas lado a lado, o recurso comum da época.

A solução foi uma esfera de vidro cheia de água. A água dentro do vidro curvo funcionava como uma lente grossa e redonda, capaz de juntar luz vinda de um ângulo muito aberto. Sutton calculou a esfera para cobrir cerca de 120 graus de paisagem.

O problema veio na outra ponta do caminho da luz. Uma lente desse tipo forma a imagem numa superfície curva, e chapa de vidro plana não encaixava ali. Sutton mandou fazer chapas de vidro curvas, que precisavam de suportes curvos e de químicos espalhados por igual numa superfície arredondada.

A primeira lente de 120 graus pedia um vidro curvo para receber a foto.

O fabricante londrino Thomas Ross construiu algumas câmeras com o desenho de Sutton. Poucas foram feitas, e o modelo nunca virou ferramenta comum: chapa curva era cara, quebrava fácil e tornava cada cópia uma pequena obra de vidraria.

O celular resolveu o mesmo problema com cálculo. A lente ultra-angular do aparelho também entorta as bordas da imagem, mas o processador do telefone estica e endireita os cantos antes de gravar o arquivo. O sensor continua plano, e a correção acontece em frações de segundo.

O preço dessa correção aparece nos cantos. Pessoas posicionadas na borda de uma foto feita na grande angular ficam com o rosto alargado, e prédios perto do limite do quadro parecem tombar para fora. É a mesma curvatura que Sutton enfrentava, agora disfarçada por software.

Sutton morreu em 1875. A esfera de água ficou como curiosidade de museu, e a pergunta que ela respondia, quanto do mundo cabe num retângulo, voltou ao bolso de milhões de pessoas com um toque no 0,5x da tela.

 

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III  Real ou Feito

Feito, e a mão que não fecha

Feito. A pessoa, o celular e a foto do vale saíram de um modelo gerador, e a própria cena deixa a origem à vista.

O primeiro sinal está nos dedos. A mão que segura o celular tem um dedo a mais escondido atrás do aparelho: contando as pontas que aparecem na borda e as que apoiam por baixo, a soma passa de cinco.

O segundo sinal está na mancha. Na foto ao lado, a sombra escura aparece no canto de baixo à direita, mas o dedo da cena encosta na quina do lado oposto. Pela inversão da lente, a mancha deveria cair no canto de baixo do mesmo lado em que a pessoa vê as câmeras.

O terceiro sinal falta no arquivo. A foto do vale não traz dados de captura: nada de lente usada, distância focal ou hora, porque nenhum celular gravou aquela imagem.

Para provar o defeito com o próprio aparelho, o teste pede só uma janela ou uma parede clara e o celular com a grande angular.

1. Abra a câmera e toque no 0,5x para ligar a grande angular.

2. Segure o celular deitado, com uma mão em cada ponta, do jeito de sempre.

3. Fotografe a janela sem olhar para os dedos.

4. Troque a pegada: a mão do lado das lentes desce e apoia o aparelho por baixo, e o polegar da outra mão aperta o botão de volume.

5. Fotografe a mesma janela e compare os dois cantos de baixo em tamanho cheio.

Quem quiser medir a margem pode fazer uma sexta foto: na pegada nova, suba o indicador devagar pela lateral do aparelho, um clique a cada centímetro. A primeira foto com sombra no canto mostra até onde o dedo pode subir naquele modelo.

Na lente principal, o mesmo teste costuma sair limpo nas duas pegadas. A diferença entre as fotos mostra que o dedo sempre esteve ali perto e que só a lente larga alcança aquele ponto.

Na grande angular, a pegada faz parte do enquadramento.

“Quantas das suas fotos largas guardam um canto escuro que você culpou na luz?”

Teste hoje: faça a mesma janela em 0,5x com a pegada de sempre e com o celular apoiado pela metade de baixo. Espere ver uma meia-lua escura no canto da primeira foto e o canto limpo na segunda.

 
 
Quiz da edição

Em que ano o fotógrafo inglês Thomas Sutton patenteou a lente panorâmica de 120 graus feita com uma esfera de vidro cheia de água?

A1839
B1859
C1875
D1919

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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