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ED 008

A hélice que entortou dentro do quadro

O sensor lê o quadro linha por linha e entrega a pá em gancho, e o tempo de obturador da ficha diz se a hélice girava ou estava parada

Hélice de avião com as pás desenhadas em ganchos curvos, ao lado de uma carenagem de motor com todas as linhas retas.

A pá que a leitura por linhas deixou curva

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O sensor de um celular não registra o quadro inteiro no mesmo instante. Ele lê a imagem em fileiras de pixels, de cima pra baixo, uma linha depois da outra.

A primeira linha e a última podem sair separadas por algumas dezenas de milissegundos. Em tudo que está parado, a diferença some: o prédio da linha 1 é o mesmo prédio da linha 3.000.

Ponha no quadro uma coisa que gira a mil rotações por minuto e a diferença vira desenho. A pá que estava no alto já rodou quando a varredura chega embaixo, e a linha de baixo encontra a mesma pá em outro lugar do céu.

O arquivo emenda as duas leituras como se fossem simultâneas. O que sai dali é uma pá com formato que não existe em metal nenhum: curvada, afinada no meio, às vezes solta do cubo.

O apelido do defeito é leitura por linhas, ou rolling shutter, e ele mora em quase todo sensor de celular.

Aqui entra a troca que quase todo mundo faz: o tempo de obturador não é o que entorta a pá.

Tempo de obturador é quanto cada linha fica exposta à luz. Em alguns décimos de milissegundo, a ponta da pá anda menos de dez centímetros e chega ao arquivo com a borda desenhada.

Quem entorta é o intervalo entre a primeira linha lida e a última, e esse intervalo não aparece com nome próprio em ficha nenhuma.

Por aí a ficha vira ferramenta de leitura, e não enfeite do arquivo. Tempo de obturador curto num quadro com a pá em gancho fecha de um jeito só: a hélice girava e o sensor leu devagar.

A mesma ficha separa os outros dois casos. Tempo curto com pás retas, iguais e espaçadas em ângulos regulares diz que a hélice estava parada.

E tempo longo, um sessenta avos de segundo, não devolve pá nenhuma numa hélice em movimento: devolve um disco translúcido com a carenagem aparecendo por trás.

A imagem de hoje é o caso limpo dos três. A hélice chega em gancho, a asa ao lado chega reta, e a ficha do arquivo veio inteira, com tempo, abertura e sensibilidade escritos. Vale começar pelo quadro.

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I  O Clique de Hoje

Seis ganchos pretos e uma asa sem tremer

A imagem tem uma hélice de turboélice em pleno giro, fotografada da janela do avião, com as pás curvadas em gancho.

A foto abre com uma hélice em pleno giro, desenhada em lâminas pretas curvadas como ganchos. O quadro é horizontal e foi feito de dentro do avião, pela janela.

O enquadramento pega o motor inteiro, o começo da asa e o chão lá embaixo, que ocupa a metade de baixo da imagem.

O cone do cubo aparece no meio, cinza-escuro e liso, apontando pra esquerda. É de onde as pás deveriam sair.

Nenhuma delas sai reta. Cada pá desenha um arco próprio, e os arcos não têm o mesmo raio nem a mesma espessura.

Uma sobe pelo alto do quadro e escapa pela borda de cima, com a ponta amarela quebrada em traços curtos.

Outra atravessa o céu da esquerda pra direita e termina afinada, com cara de foice.

Uma terceira passa por trás da carenagem e reaparece do outro lado mais estreita do que entrou.

Perto da esquerda do cubo, um pedaço curto e quase reto aparece solto, sem ligação visível com o resto da hélice.

As pás não estão espaçadas por igual. Duas quase se encostam no alto do quadro, e o setor de baixo fica aberto por um vão largo.

Contar as pás pela imagem também não funciona. Dependendo de onde a contagem começa, o quadro devolve um número diferente do que o cubo comporta.

O amarelo das pontas é a única cor que a hélice traz. Ele aparece em pedaços, nunca numa faixa contínua, e some onde a pá cruza a carenagem.

A carenagem do motor não tem nada dessa moleza. O painel cinza claro chega com as emendas retas, os rebites contáveis um a um e as letrinhas de manutenção estampadas no metal.

A asa continua pra direita em azul escuro. Sobre ela, uma marca clara com desenho de cabeça de felino chega com as bordas inteiras, sem esticar em nenhum ponto.

Lá no fundo, o chão aparece com quarteirões, plantações e um braço de água entrando pela terra. Nada arrasta.

O horizonte fecha a metade de cima numa linha reta. Na borda esquerda, uma montanha com neve no topo aparece pequena e parada.

A conta do quadro não fecha por um motivo só: dentro da mesma imagem, uma coisa saiu deformada e todo o resto saiu reto.

Deformação que escolhe um alvo só não vem da lente e não vem do tremor: vem do relógio do sensor, que passou por cima do assunto em momentos diferentes.

Falta a parte que o quadro sozinho não entrega: quem apertou, de onde, com qual aparelho e em qual ajuste. Nesta, o arquivo está publicado e a ficha veio inteira.

 
 

II  Quem Apertou

Dick Lyon e o celular na janela

A foto tem autor identificado, data, coordenada gravada no arquivo e ficha técnica publicada. Ela foi feita em 13 de julho de 2021, às 17h05, em voo sobre a região de Everett, no estado americano de Washington, e está no acervo aberto do Wikimedia Commons.

Quem assina é Richard F. Lyon, engenheiro e pesquisador que publica no acervo com o usuário Dicklyon. A licença é de atribuição, e o arquivo pode ser aberto e conferido por qualquer pessoa.

O aparelho é um Google Pixel 3, celular comum de 2018. Sem lente trocável, sem obturador mecânico e sem diafragma variável.

A distância focal gravada é de 4,44 milímetros, equivalente a 27 milímetros no formato tradicional. O arquivo tem 4.032 por 3.024 pixels.

O avião é um De Havilland Canada Dash 8 Q400, o turboélice de linha regional que a própria enciclopédia usa a imagem pra ilustrar.

A hélice dele tem nome e ficha própria: Dowty R408, seis pás de compósito e 4,11 metros de diâmetro.

O regime de giro está publicado pelo fabricante. São 1.020 rotações por minuto no máximo e 850 em cruzeiro.

A 1.020 rotações, a hélice dá 17 voltas por segundo. A ponta da pá corre a mais de 200 metros por segundo, perto de 780 quilômetros por hora.

A ficha do arquivo deixa a conta aberta em três números.

O primeiro é o tempo em que cada linha ficou exposta: 1/2.932 de segundo, ou 0,34 milissegundo. O segundo é a abertura da lente: f/1,8. O terceiro é a sensibilidade escolhida: ISO 59.

Zero vírgula trinta e quatro milissegundo congela quase tudo que voa. A 17 voltas por segundo, a hélice gira dois graus nesse intervalo, e a ponta da pá anda pouco mais de sete centímetros.

Sete centímetros num objeto de quatro metros de ponta a ponta somem no arquivo. Daí a borda da pá chegar desenhada, e não borrada.

O número que explicaria o gancho é o único que a ficha não traz: o tempo que o sensor leva pra varrer as 3.024 linhas do quadro.

Esse dado não entra em arquivo de foto. Ele é medido de fora, e nos celulares dessa geração fica na casa das dezenas de milissegundos.

Dezenas de milissegundos, com a hélice a 17 voltas por segundo, dá quase uma volta inteira entre a primeira linha e a última.

A enciclopédia que usa a imagem como exemplo diz o mesmo por outro caminho: a mancha de cada pá vem de a hélice girar a uma velocidade parecida com a da leitura do quadro.

Quadro e ficha, juntos, já sustentam a leitura. Faltam os dois sinais que separam a hélice que girava da que entrou parada no arquivo.

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III  Real ou Feito

A pá curva e a ficha de 1/2.932

Real. A conclusão sai do próprio quadro e da ficha, e a mesma ficha entrega o roteiro pra repetir a cena numa poltrona de janela.

O primeiro sinal é a deformação escolher um alvo só. A hélice chega em gancho e o resto do quadro chega reto: emenda de painel, cabeça de rebite, letra estampada, borda da marca na asa e linha do horizonte.

Filtro de distorção não sabe separar assunto. Ele pega a vizinhança junto, e a carenagem encostada na hélice seria a primeira a entortar.

Tremor de mão erra do mesmo jeito. O balanço ondula o quadro inteiro, com o horizonte e a asa entrando na onda, e no arquivo original a asa não tem uma dobra sequer.

Montagem tropeça na mesma casa. Colar uma hélice torta sobre um avião exige curvar pá por pá no mesmo sentido de giro e ainda deixar o cone do cubo intacto no meio.

O sentido é a assinatura da varredura. Ela anda numa direção só, então a pá encontrada mais tarde aparece deslocada sempre pro mesmo lado, e nenhuma curva foge da regra.

O segundo sinal é o tempo de obturador da ficha. Com 0,34 milissegundo, a pá se move dois graus enquanto a linha fica exposta, e a borda sai desenhada.

Borda desenhada e forma impossível na mesma pá é a combinação que só a leitura por linhas produz.

Troque o tempo e a conta muda de resposta. Com a hélice parada e o mesmo 1/2.932, as seis pás sairiam retas, iguais e espaçadas em 60 graus certinhos.

Com a hélice girando e um sessenta avos de segundo, a pá some. Em 1/60, a ponta corre mais de três metros, e o arquivo recebe um disco translúcido com a carenagem aparecendo por trás.

Pá nítida com tempo longo não existe em hélice girando. Quando as duas aparecem na mesma imagem, a ficha e o quadro contam histórias diferentes.

Detector automático de imagem falsa não decide o caso: porcentagem não explica por que a pá entortou e o rebite ao lado dela continuou redondo.

1. Sente na janela alinhada com o motor e use a câmera comum do celular, sem modo profissional. Toque no céu pra puxar a medição pra cima e forçar o tempo curto que congela a pá.

2. Dispare quatro ou cinco quadros seguidos. Cada um pega a hélice em outra fase da volta, e o mesmo motor devolve gancho, foice e pá partida em quadros consecutivos.

3. Amplie na tela antes de guardar. A emenda da carenagem e a linha do horizonte têm que continuar retas. Se o avião inteiro ondular junto, o assunto foi tremor de mão, não hélice.

A pá torta é o retrato do relógio do sensor, e o tempo de obturador da ficha é o que decide se a hélice girava ou só estava ali parada.

"Qual hélice, ventilador ou roda saiu torta na sua galeria com a culpa jogada na lente?"

 
 
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AO tempo de obturador de 1/2.932 de segundo escolhido no clique
BA varredura do sensor, que leu as linhas do quadro em instantes diferentes
CA vibração do motor passando pelo vidro da janela
DA distância focal de 4,44 milímetros do celular
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