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A 50 centímetros do muro verde, o rosto esverdeia

A parede colorida devolve a própria cor na pele, e o celular não consegue separar uma da outra

Mulher a meio metro de um muro verde, com o sol da tarde no lado oposto do rosto.

O muro verde tinge a bochecha mais próxima

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O ajuste de branco (a correção automática que o celular faz para o papel branco sair branco na foto) limpa a cor de qualquer luz. A meio metro de um muro verde, ele perde.

Ponha uma pessoa de costas para o sol da tarde, com o ombro quase encostado num muro pintado de verde-folha, e fotografe o rosto. A bochecha voltada para o muro sai com um tom de alface. A outra bochecha, iluminada pelo sol, sai com a cor normal da pele.

Abra a foto no editor e puxe o controle de matiz para o magenta, o oposto do verde no círculo das cores. A bochecha do muro melhora. A do sol fica rosada demais, como queimadura.

Volte o controle e tente de novo, agora pela pipeta, a ferramenta que pede para você tocar num ponto neutro da imagem. Toque na bochecha esverdeada: o rosto inteiro vira rosa. Toque na parte iluminada pelo sol: o verde volta para o lugar dele.

Não existe posição do controle que acerte as duas metades ao mesmo tempo. O rosto recebeu duas luzes de cores diferentes, uma em cada lado, e o ajuste de branco só sabe empurrar a foto inteira numa direção.

A tinta verde funciona como uma lâmpada fraca. Ela recebe a luz do dia, que traz todas as cores juntas, engole boa parte do vermelho e do azul e devolve o resto, com predominância do verde. Essa luz devolvida cai em tudo que está perto do muro, e a pele clara, que reflete bem, registra o tom com fidelidade.

O efeito tem nome no ofício: contaminação de cor. Fotógrafo de casamento conhece pela grama, que tinge o queixo da noiva vestida de branco. Fotógrafo de produto conhece pela toalha vermelha que tinge a lateral de uma taça.

A distância resolve sem software. Com a pessoa a dois metros do muro, a mancha verde do rosto quase some, e o muro continua inteiro no fundo da foto, com a cor viva.

A primeira seção mede quanto do rosto o muro ocupa a meio metro, a um metro e a dois, e mostra por que o recuo de um metro e meio pesa tanto na cor da pele.

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I  O Clique de Hoje

O muro que vira lâmpada

A imagem do topo mostra uma mulher a meio metro de um muro verde, com o sol do fim da tarde batendo no lado oposto do rosto.

Uma parede pintada não brilha sozinha, mas toda superfície iluminada devolve parte da luz que recebe. A tinta fosca espalha essa luz em todas as direções, como um pano de algodão, e a cor da luz devolvida é a cor da tinta.

Para a bochecha, o muro é uma fonte de luz grande e próxima. A força dele sobre a pele depende de quanto do campo de visão daquela bochecha ele ocupa.

A conta do campo de visão

Pense num muro de três metros de largura por dois e meio de altura, com o rosto na altura do meio dele.

A meio metro, o muro cobre cerca de nove décimos de tudo que a bochecha voltada para ele enxerga. Quase toda a luz que chega naquele lado do rosto passou antes pela tinta verde.

A um metro, a parte do muro cai para perto de sete décimos. O céu e o chão começam a entrar pelas bordas e a diluir o verde com luz de outras cores.

A dois metros, o muro ocupa pouco mais de um terço da vista da bochecha. A três, cerca de um quinto. O resto da luz vem do céu, do chão, das paredes vizinhas e do próprio sol rebatido pelo ambiente.

Por que o recuo pesa

Entre meio metro e dois metros, a parte verde da luz cai para menos da metade. Ao mesmo tempo, a parte neutra, que vem do céu e do chão, cresce. As duas mudanças se somam na pele.

O olho humano tolera pouco desvio no tom de pele. Um céu um pouco mais azul ou uma parede um pouco mais amarela passam sem aviso, mas um rosto levemente verde parece doente, porque a pele saudável nunca puxa para o verde.

O muro só pinta a pele quando enche a vista dela.

O ajuste que não alcança

O ajuste de branco foi feito para um problema diferente: a sala inteira iluminada por uma lâmpada amarela, ou a rua inteira sob céu nublado azulado. Nesses casos, a foto toda puxa para o mesmo lado, e um empurrão no sentido oposto devolve o branco.

Com o muro, a cor muda dentro do rosto. O lado do muro recebe luz verde, o lado do sol recebe luz quente, e a testa, virada para o céu, recebe luz azulada. Três cores em dez centímetros de pele.

Corrigir uma das zonas estraga as outras duas. O recurso de quem edita é pintar a correção à mão, só na bochecha esverdeada, com pincel de máscara (a ferramenta que aplica um ajuste numa área desenhada com o dedo), e o resultado costuma deixar a pele com aspecto de massa corrida.

O caminho barato acontece na hora do clique: afastar a pessoa do muro, girar o corpo para que o lado do rosto voltado para a parede fique na sombra do próprio ombro, ou pôr entre os dois um rebatedor (a placa branca que devolve luz neutra) para disputar com o verde.

 
 

II  Quem Apertou

O pano cinza de Irving Penn

Irving Penn, fotógrafo americano da revista Vogue, passou seis décadas fotografando rostos diante de fundos neutros, sem cor nenhuma por perto para tingir a pele.

Irving Penn nasceu em 1917, em Plainfield, no estado de Nova Jersey. Estudou desenho com Alexey Brodovitch, diretor de arte da revista Harper's Bazaar, e entrou na Vogue em 1943, primeiro como assistente de capa e depois como fotógrafo.

Penn trabalhava com luz de janela voltada para o norte, que no hemisfério dele nunca recebe sol direto e assim entrega uma luz macia e estável ao longo do dia. Quando não tinha janela, montava uma tenda com tecido e imitava o mesmo efeito.

O canto de 1948

Em 1948, para a Vogue, Penn juntou dois painéis de cenário em ângulo agudo e pôs os retratados espremidos no vértice. Passaram pelo canto Truman Capote, Marcel Duchamp e Georgia O'Keeffe, entre outros.

Os painéis ficavam a poucos centímetros dos ombros. Naquela distância, qualquer cor nas paredes do canto teria pintado as roupas e os rostos. Os painéis eram neutros, e a única cor das fotos é a da pele e do tecido de cada retratado.

O fundo de teatro

Por volta de 1950, Penn passou a usar um pano de fundo de lona pintado à mão em manchas de cinza e marrom, comprado para uma temporada de trabalho em Paris. O mesmo pano viajou com ele por décadas, de estúdio em estúdio.

As manchas dão profundidade ao fundo sem pôr cor nova na cena. O cinza devolve a luz da janela do jeito que ela chegou, só um pouco mais fraca, e a pele do retratado mantém o próprio tom, com a mesma fidelidade na foto em preto e branco e na colorida.

Fundo neutro devolve luz sem cor, e a pele fica com a cor dela.

A série dos ofícios

Na série Small Trades (Pequenos Ofícios), feita em Paris, Londres e Nova York entre 1950 e 1951, Penn fotografou vendedores, carteiros, açougueiros e limpadores de chaminé com a roupa de trabalho, um a um, diante do fundo neutro.

O avental branco do açougueiro sai branco. O rosto do carteiro sai com o mesmo tom nas duas bochechas. Nada no estúdio competia com a luz da janela, e a cor de cada foto vem só de quem posou.

Penn morreu em 2009, em Nova York. O método dele resume a regra pelo avesso: quem quer a pele fiel controla o que está a menos de um metro do rosto, porque é dali que vem a maior parte da luz que o modelo recebe.

 

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III  Real ou Feito

Feito, e a gola branca sem verde

Feito. A mulher do topo nunca posou: um programa de inteligência artificial montou a cena a partir de um texto da redação, e três detalhes denunciam a origem.

Primeira pista: a gola branca não pegou verde. A camisa branca reflete mais luz que a pele e fica ainda mais perto do muro. Se a bochecha esverdeou, a gola teria esverdeado antes e com mais força.

Segunda pista: o verde passou para o lado do sol. A bochecha iluminada pelo sol direto recebe uma luz muitas vezes mais forte que a devolvida pelo muro. Naquele lado, o verde se perde no brilho quente do fim da tarde.

Terceira pista: o reboco se repete. Muro rebocado à mão tem ondas, falhas e manchas sem padrão. Na imagem, o mesmo trecho de textura aparece várias vezes, em blocos regulares.

O tom esverdeado da bochecha voltada para o muro, por sua vez, bate com uma foto real.

Para ver a contaminação em casa, bastam uma folha de papel sulfite branca, uma camiseta ou toalha de cor forte, uma janela de dia e o celular com o ajuste de branco travado no modo luz do dia.

1. Pendure a toalha colorida ao lado da janela, sem bloquear a luz.

2. Segure a folha branca a 30 centímetros da toalha, virada para ela, e fotografe.

3. Recue a folha para 2 metros da toalha, mantendo a mesma posição em relação à janela, e fotografe de novo.

4. Abra as duas fotos lado a lado e compare a cor do papel.

A 30 centímetros, o papel deve sair tingido com a cor da toalha; a 2 metros, quase branco. Se o tom não aparecer na primeira foto, a janela está forte demais: feche metade da cortina e repita.

Teste hoje, com alguém da casa: fotografe o rosto a meio metro de uma parede colorida e de novo a dois metros, e conte em qual das duas fotos a pipeta do editor acerta o branco com um toque só na bochecha, esperando falhar na primeira e acertar na segunda.

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, qual fração do campo de visão da bochecha o muro verde ainda ocupa quando a pessoa está a dois metros de distância?

ACerca de nove décimos
BCerca de sete décimos
CPouco mais de um terço
DCerca de um quinto

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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