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A 50 centímetros da parede, a sombra gruda na nuca

A luz de lado projeta o contorno da cabeça no reboco, e o recuo da pessoa empurra o borrão para fora da foto

Homem de cabelo raspado a meio metro de uma parede creme, com a sombra da cabeça no reboco.

A sombra da cabeça encostada na nuca

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Toda sombra cai do lado oposto da luz, na linha reta que sai da lâmpada e passa pelo corpo. Na foto de aniversário tirada contra a parede da sala, essa linha termina atrás da orelha do aniversariante.

Faça a prova com uma luminária de mesa. Ponha a lâmpada a dois metros de uma pessoa, um pouco à esquerda da câmera, e peça para ela ficar de pé a meio metro de uma parede branca. Fotografe da cintura para cima.

A foto sai com duas cabeças. Uma é a da pessoa. A outra é um recorte escuro, do mesmo tamanho, deslocado poucos centímetros para a direita e encostado na nuca, com a borda nítida o bastante para mostrar cada mecha de cabelo arrepiada.

Peça para ela dar um passo e meio para a frente, até ficar a dois metros da parede, sem mexer na luminária. Recue você também, para manter o mesmo enquadramento, e fotografe de novo.

A segunda cabeça sumiu. O retrato mostra a pessoa, a parede lisa atrás dela e nada mais.

A sombra continua existindo. Ela segue projetada na parede, só que agora caiu longe, além das bordas da foto, e chegou mais larga e com o contorno desmanchado.

Fotógrafo de festa infantil conhece o defeito pelo contorno preto que a luz desenha atrás de quem posa encostado no painel de balões. Quem tira foto de documento em casa conhece pela sombra dupla que estraga o retrato feito contra a porta do armário.

O conserto não pede lâmpada nova nem programa de edição. Pede espaço entre a pessoa e a parede, e um pouco de ângulo entre a luz e a câmera.

O Clique de Hoje faz a conta com fita métrica: a quantos centímetros da cabeça a sombra cai com a parede a meio metro, a um metro e a dois, e por que a borda dela amolece quando o reboco se afasta.

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I  O Clique de Hoje

Dois metros entre a nuca e o reboco

Na foto deste topo, um homem de cabelo raspado posa a meio metro de uma parede creme, com a luz de uma janela entrando pela esquerda.

A sombra de uma cabeça na parede é o prolongamento de uma linha reta. A linha sai da fonte de luz, raspa a borda do cabelo e só para quando bate no reboco.

O ponto onde ela bate depende de dois números: o ângulo entre a luz e a câmera, e a distância entre a nuca e a parede. O primeiro número decide para que lado a sombra anda. O segundo decide quanto.

A conta do deslocamento

Pense numa luz que chega à cabeça vinda de 20 graus para o lado da câmera, a posição de uma luminária posta um passo à esquerda de quem fotografa. Para cada metro entre a nuca e a parede, a sombra anda cerca de 36 centímetros para o lado oposto ao da luz.

A meio metro da parede, o deslocamento fica perto de 18 centímetros. Uma cabeça adulta mede uns 15 centímetros de largura, então a sombra começa na orelha e se estende pelo reboco, encostada no contorno do cabelo.

A um metro, o deslocamento chega a 36 centímetros. A sombra se descola da cabeça e flutua no fundo, solta, como outra pessoa espiando por trás. Para o retrato, essa distância é a pior das três.

A dois metros, a sombra anda 73 centímetros. Num enquadramento de cabeça e ombros, a borda da foto passa antes dela, e a parede atrás do rosto fica limpa.

A borda que amolece

Uma lâmpada real não é um ponto. A cúpula de uma luminária de mesa tem uns 30 centímetros, e cada pedaço dela projeta a própria sombra, um pouco deslocada das outras.

Onde todas as sombras se somam, a parede fica escura. Onde só parte da cúpula está escondida pela cabeça, aparece a penumbra (a faixa de borda borrada da sombra). A largura dessa faixa cresce na proporção da distância entre a pessoa e a parede.

Com a luminária a dois metros da pessoa e a parede a meio metro atrás dela, a penumbra fica perto de 7 centímetros, fina o bastante para a sombra desenhar orelha e mecha. Com a parede a dois metros, a penumbra chega a 30 centímetros, o dobro da largura de uma cabeça.

A sombra só gruda na cabeça quando a parede encosta na nuca.

Três consertos sem comprar nada

O primeiro é a distância: dois metros entre a pessoa e a parede resolvem o retrato de cabeça e ombros com a luz em qualquer ângulo moderado.

O segundo é o ângulo. Quando a sala não dá dois metros, leve a luz mais para o lado. A 45 graus, a sombra anda meio metro a cada metro de recuo, e meio metro de parede já basta para ela escapar do quadro fechado no rosto.

O terceiro é a altura. Erguida acima da cabeça, a luz joga a sombra para baixo, atrás das costas, onde o próprio corpo de quem posa a esconde da câmera.

 
 

II  Quem Apertou

Weegee e o contorno preto atrás do suspeito

Arthur Fellig, o fotógrafo de jornal conhecido como Weegee, fez fama nos anos 1930 e 1940 com retratos noturnos em que a sombra das pessoas aparece colada nas paredes atrás delas.

Fellig nasceu Usher Fellig em 1899, em Złoczów, cidade da Galícia que pertencia ao Império Austro-Húngaro e hoje se chama Zolochiv, na Ucrânia. A família emigrou para Nova York, e o menino chegou em 1909, quando trocou o primeiro nome para Arthur.

Trabalhou anos no laboratório da agência Acme Newspictures, revelando fotos de outros. Em 1935 saiu por conta própria e começou a vender as imagens de crimes e incêndios para os jornais da cidade.

O rádio da polícia no carro

O apelido vem do tabuleiro Ouija, o jogo de letras que promete adivinhar o futuro. Os colegas diziam que ele chegava às cenas antes da polícia, como se soubesse do crime antes de acontecer.

O segredo era mais simples. A partir de 1938, Fellig ganhou permissão para instalar no carro um rádio sintonizado na frequência da polícia, e dormia de roupa, pronto para sair quando o chamado vinha de madrugada.

No porta-malas, levava um laboratório de revelação. A foto saía do carro já pronta para a redação, ainda na mesma noite.

A luz grudada na câmera

A máquina dele era a Speed Graphic, a câmera de imprensa da época, com negativo de quatro por cinco polegadas e um refletor de flash preso na lateral. A lâmpada de flash queimava uma vez e precisava ser trocada a cada foto.

Esse flash era pequeno, duro e ficava a um palmo da lente. Nas ruas e nas delegacias, os fotografados estavam quase sempre encostados num anteparo qualquer: parede de tijolo, porta de viatura, grade da cela.

Com a parede a poucos centímetros, o flash projetava a sombra da pessoa logo atrás dela, nítida, desenhando chapéu, ombro e mão algemada num contorno preto que acompanhava o corpo.

Weegee não afastava ninguém da parede: a sombra colada virou a assinatura dele.

O livro e os últimos anos

Em 1945, Fellig reuniu as fotos no livro Naked City (Cidade Nua). O título foi comprado por Hollywood e virou o filme de mesmo nome dirigido por Jules Dassin, lançado em 1948.

Fellig passou alguns anos em Hollywood, trabalhou como consultor e fez pequenas pontas em filmes, e voltou para Nova York, onde viveu até 1968. O arquivo dele, com negativos e cópias, está no International Center of Photography (Centro Internacional de Fotografia), em Manhattan.

Penn morreu em 2009, em Nova York. O método dele resume a regra pelo avesso: quem quer a pele fiel controla o que está a menos de um metro do rosto, porque é dali que vem a maior parte da luz que o modelo recebe.

 

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III  Real ou Feito

Feito, e a sombra com o cabelo errado

Feito. O homem do topo nunca posou: um programa de inteligência artificial montou a cena a partir de um texto da redação, e três detalhes entregam a origem.

Primeira pista: a sombra cai do lado da janela. A luz entra pela esquerda, então a sombra da cabeça teria de cair à direita dela. Na imagem, ela cai à esquerda, voltada para a própria luz.

Segunda pista: a sombra tem cabelo comprido. O homem tem o cabelo raspado rente. O contorno escuro na parede mostra fios descendo até os ombros, um penteado que nenhuma cabeça da cena tem.

Terceira pista: uma janela, duas sombras. Uma fonte de luz única projeta uma sombra só. A imagem traz uma segunda sombra, fraca, do outro lado da cabeça, sem luz nenhuma que a explique.

A sombra encostada na nuca, nítida e quase do tamanho da cabeça, é o detalhe que bate com uma foto real tirada a meio metro da parede.

Para ver o deslocamento em casa, bastam uma luminária de mesa, uma parede lisa, uma fita métrica, um pedaço de fita adesiva e alguém disposto a posar parado.

1. Ponha a luminária a dois metros da pessoa, um passo à esquerda de onde você vai fotografar.

2. Peça para a pessoa ficar a 50 centímetros da parede, de frente para a câmera, e marque na parede, com a fita adesiva, a borda direita da sombra da cabeça.

3. Afaste a pessoa para 1 metro da parede, sem mexer na luminária, e marque de novo a borda da sombra.

4. Meça com a fita métrica a distância entre cada marca e o ponto da parede logo atrás da orelha.

O segundo número deve sair perto do dobro do primeiro, porque o deslocamento cresce na mesma proporção do recuo. Se as duas marcas ficarem quase no mesmo lugar, a luz está alinhada demais com a câmera: leve a luminária mais um passo para o lado e repita.

Teste hoje: fotografe a mesma pessoa a 50 centímetros e a 2 metros da parede, com a luz parada, e conte em quantas das duas fotos aparece a segunda cabeça; o esperado é uma na primeira e zero na segunda.

 
 
 

Quiz da edição

Em que ano Weegee conseguiu autorização para instalar no carro um rádio sintonizado na frequência da polícia?

A1935
B1938
C1945
D1948

Veja o ranking de quem mais acerta →

 

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