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A 4 metros do fio, cada luzinha vira um disco

Afastar a pessoa das luzes de enfeite dobra o tamanho de cada bola de luz no fundo, sem trocar de celular

Retrato noturno com luzinhas de enfeite viradas em discos ao fundo.

Luzinhas a metros do rosto viram discos

▼
 

A luzinha do fundo cresce com a distância entre o rosto e o fio. Na festa de fim de ano do escritório, quase todo mundo quebra a regra: encosta a pessoa no fio de luzes da parede e dispara.

A foto sai com o rosto nítido e, logo atrás da orelha, uma fileira de lâmpadas pequenas e duras. Cada uma vira um pontinho branco, e o fio preto aparece entre elas como um varal.

Quem fotografou esperava outra imagem. Nas fotos de casamento e nos ensaios de dezembro, a mesma fileira de lâmpadas surge atrás do casal como uma cortina de discos grandes e macios, sem fio nenhum à vista.

O celular é o mesmo, a lente é a mesma, e as lâmpadas custaram o mesmo na loja de decoração. Muda uma medida só, e ela não aparece em nenhuma tela de ajuste: os passos entre a pessoa e o fio.

Com o rosto a um metro das luzinhas, o desfoque mal tem espaço para agir. A lente põe o rosto em foco, e o fundo fica tão perto do plano nítido que cada lâmpada sai quase do tamanho real, só um pouco amolecida.

Com o rosto a quatro metros do fio, o fundo fica bem longe do plano de foco. Cada lâmpada se espalha no sensor e vira um disco largo, a ponto de os discos vizinhos se tocarem e o fio sumir entre eles.

O fotógrafo de casamento conhece a regra e a usa a favor. Ele não encosta os noivos na parede de luzes: tira os dois de perto do fio, anda com eles até o meio do salão e só então levanta a câmera.

A troca custa alguns passos. Nenhum aplicativo, filtro ou acessório entra na conta, e o resultado aparece na hora, no próprio visor do celular.

A primeira seção mostra por que o disco cresce, faz a conta com as medidas de uma sala comum e explica onde o crescimento para.

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I  O Clique de Hoje

Quando o fundo se afasta do foco

A imagem do topo mostra um retrato noturno com uma fileira de luzinhas atrás da modelo, cada lâmpada transformada num disco claro.

Toda lente põe em foco um único plano de distância. O que fica nele sai nítido; o que fica antes ou depois chega ao sensor como mancha, o chamado círculo de confusão (o disco borrado em que um ponto de luz fora de foco se transforma).

Um ponto de luz fora do plano não chega ao sensor como ponto. O feixe que sai dele atravessa a lente e converge antes do sensor, e o sensor corta esse feixe já aberto, como quem corta um cone de sorvete na horizontal: o corte é um disco.

A conta da sala

Quanto mais longe do plano de foco a lâmpada estiver, mais aberto está o cone no ponto em que o sensor o corta, e maior sai o disco. A medida decisiva é o espaço entre o rosto focado e o fio, comparado com o espaço entre a câmera e o fio.

Imagine o celular a dois metros da modelo. Com o fio a um metro atrás dela, as luzinhas ficam a três metros da câmera. Com a modelo a quatro metros do fio, elas ficam a seis.

Pela geometria da lente, o tamanho do disco acompanha uma fração simples: a distância entre rosto e fio dividida pela distância entre câmera e fio. No primeiro caso, um sobre três. No segundo, quatro sobre seis, ou dois terços.

O disco dobra de diâmetro, e a área dele fica quatro vezes maior. Uma lâmpada que ocupava um ponto discreto passa a cobrir uma mancha larga da foto, e os discos vizinhos começam a se encostar.

Afastar o fundo do rosto faz o trabalho de uma lente nova.

O teto do crescimento

A fração tem limite. Mesmo com o fio a cem metros, ela nunca chega a um inteiro: o disco se aproxima de um tamanho máximo, próprio daquela lente, e para de crescer.

Daí vem o salto grande acontece nos primeiros metros. Passar de um para quatro metros dobra o disco; passar de quatro para dez rende um ganho pequeno, e a modelo já saiu do salão.

Perto da câmera, o efeito aumenta

A mesma fração explica o segundo caminho. Se o fotógrafo chega perto do rosto, a distância entre câmera e fio encurta, a parte de baixo da fração diminui, e os discos crescem sem ninguém mexer na decoração.

Com o celular a um metro da modelo e o fio a quatro metros atrás dela, a fração vira quatro sobre cinco. O disco fica perto do tamanho máximo, e o rosto também cresce no quadro.

 
 

II  Quem Apertou

O editor deu nome à mancha

Mike Johnston, fotógrafo e editor norte-americano, levou a palavra bokeh (do japonês boke, desfoque ou borrão) para a fotografia em inglês em 1997.

Johnston editava a revista Photo Techniques, publicação técnica de fotografia dos Estados Unidos. Na edição de março e abril de 1997, ele reuniu artigos sobre a aparência das áreas fora de foco, assunto que fotógrafos japoneses discutiam havia anos.

Em japonês, boke descreve a imagem borrada, confusa. Os fotógrafos do Japão usavam o termo para julgar as manchas do fundo de uma foto e comparar uma lente com outra pela maciez dessas manchas.

O h no fim

Johnston acrescentou um h ao final da grafia para orientar a pronúncia. Sem ele, o leitor de língua inglesa tendia a ler a palavra como rima de "smoke" (fumaça), e o e solto do japonês se perdia.

A grafia pegou. Em poucos anos, bokeh virou termo de fórum, de catálogo de lente e de manual de câmera, e hoje dá nome a efeitos de desfoque em aplicativos de celular.

Os autores da edição

A mesma edição trouxe textos de John Kennerdell, de Oren Grad e de Harold Merklinger, engenheiro canadense que escrevia sobre foco e profundidade de campo (a faixa de distâncias que sai nítida numa foto).

Merklinger tratava o desfoque como geometria. No modo como ele descrevia, o tamanho da mancha de um objeto depende de quanto ele está longe do plano focado, a mesma relação que transforma o fio a quatro metros numa cortina de discos.

Bokeh nomeia a aparência da mancha; a distância decide o tamanho dela.

Depois da revista

Johnston seguiu escrevendo sobre fotografia e, em 2005, criou o blog The Online Photographer, onde comenta câmeras, livros e fotógrafos para um público fiel.

A palavra que ele trouxe virou etiqueta de venda. Fabricantes de celular passaram a anunciar modos de retrato que simulam o desfoque por programa, recortando o rosto e borrando o resto da imagem.

O recurso por programa tem um ponto fraco: ele calcula o borrão pela profundidade estimada da cena e erra nas bordas do cabelo e dos óculos. A distância real entre a pessoa e o fio entrega o desfoque pela própria lente, sem recorte.

 

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III  Real ou Feito

Feito, e os discos todos iguais

Feito. O retrato do topo nunca aconteceu: um programa de inteligência artificial montou a cena a partir de um texto da redação, e três detalhes denunciam a origem.

Primeira pista: os discos têm todos o mesmo tamanho. O fio desce na diagonal, então as lâmpadas da ponta mais próxima estão mais perto da modelo. Numa foto real, elas sairiam com discos menores, e as do fundo, com discos maiores.

Segunda pista: o fio preto aparece entre discos grandes. Quando o desfoque é forte a ponto de as lâmpadas virarem discos desse tamanho, o fio fino se dissolve junto. Na imagem, ele segue desenhado, nítido como se estivesse no plano do rosto.

Terceira pista: a borda do cabelo corta os discos de forma limpa. O desfoque real espalha a luz do fundo por cima dos fios soltos do cabelo. Na imagem, cada fio termina numa linha recortada, sem luz invadindo.

O tamanho dos discos atrás do rosto, por sua vez, é coerente com uma modelo a alguns metros do fio, a situação que a primeira seção descreve.

Para medir o efeito em casa, bastam um fio de luzinhas de enfeite, uma parede livre, uma pessoa disposta a andar e uma trena ou fita métrica.

1. Prenda o fio aceso na parede e apague a luz do teto.

2. Coloque a pessoa a um metro do fio e fique a dois metros dela.

3. Toque no rosto na tela para fixar o foco e fotografe no modo foto comum, sem o modo retrato.

4. Leve a pessoa para quatro metros do fio, ande junto para manter os seus dois metros até ela, e fotografe de novo.

5. Amplie as duas fotos na galeria e compare a mesma lâmpada nas duas.

Na foto de um metro, as lâmpadas vão sair como pontos pequenos com o fio visível entre eles. Na de quatro metros, cada lâmpada vai ocupar um disco com cerca do dobro do diâmetro, e o fio vai sumir entre os discos.

Se a diferença sair pequena, a câmera está longe demais da pessoa. Chegue a um metro do rosto e repita a foto de quatro metros: os discos crescem de novo, como a conta da primeira seção prevê.

Longe do fio, cada luzinha vira um disco.

Teste hoje, com o fio de enfeite: fotografe a pessoa a um metro e depois a quatro metros das lâmpadas, com você sempre a dois metros dela; amplie as duas fotos e conte quantos trechos de fio preto aparecem entre as lâmpadas em cada uma, esperando vários na primeira e nenhum na segunda.

 
 
Quiz da edição

Na conta da edição, com o celular fixo a dois metros do rosto, o que acontece com o disco de cada luzinha quando a distância entre o rosto e o fio passa de um metro para quatro metros?

AO disco cresce muito pouco, quase imperceptível a olho nu
BO fio preto desaparece e cada lâmpada vira um quadrado
CO disco dobra de diâmetro e a área dele fica quatro vezes maior
DO disco encolhe pela metade porque a luz chega mais fraca ao sensor

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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