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A 30 centímetros, a selfie alarga o nariz em 30%

Um estudo de 2018 mediu a distorção do braço esticado, e um passo para trás com recorte depois desfaz o estrago

O mesmo rosto em selfie de perto e em retrato recortado de longe.

Selfie a 30 cm e retrato a 1,5 m

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A lente não deforma o rosto. Quem deforma é a distância entre a lente e o rosto, e a selfie encurta essa distância ao comprimento de um braço dobrado.

Em 2018, a revista médica JAMA Facial Plastic Surgery publicou a conta. A equipe de Brittany Ward e Boris Paskhover, da Rutgers New Jersey Medical School, calculou que uma foto feita a trinta centímetros alarga a base do nariz perto de trinta por cento, comparada à mesma foto feita a um metro e meio.

A geometria cabe numa fita métrica. A ponta do nariz fica uns cinco centímetros mais perto da câmera do que as maçãs do rosto. A trinta centímetros, cinco centímetros representam um sexto do caminho inteiro, e a ponta do nariz recebe uma ampliação bem maior que a das orelhas.

A um metro e meio, os mesmos cinco centímetros encolhem para um trigésimo da distância. A diferença de ampliação entre nariz e orelha cai para quase nada, e o rosto inteiro sai na mesma escala.

O efeito escapa da tela. Na pesquisa anual de 2017 com seus associados, a Academia Americana de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva Facial registrou que 55% dos cirurgiões tinham atendido pacientes interessados em melhorar a aparência nas selfies.

Muitos desses narizes nunca tiveram a largura que a foto mostrava. A largura extra vinha do braço, e o braço tem comprimento fixo.

O conserto custa um passo para trás. A câmera se afasta, o rosto ocupa um pedaço menor do quadro, e o recorte feito depois devolve o enquadramento apertado. A foto perde pixels; o nariz volta à largura real.

Vale para qualquer câmera, do celular à máquina profissional. Lente nenhuma escapa da regra, porque a regra mora na posição do fotógrafo, e a lente só obedece.

A imagem do topo coloca as duas versões do mesmo rosto lado a lado, e a primeira seção mede, centímetro a centímetro, onde a selfie engana.

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I  O Clique de Hoje

Dois rostos, uma pessoa

A resposta de ontem

Quem ficou com os negativos de Yosemite de Watkins?

Isaiah West Taber, fotógrafo de San Francisco, ficou com os negativos depois da falência e vendeu as cópias com o próprio nome impresso no cartão. Watkins respondeu voltando ao vale e refazendo as vistas na New Series (nova série), e os acervos do Museu Getty ainda separam as duas autorias.

A imagem do topo mostra o mesmo homem duas vezes: à esquerda, uma selfie de braço esticado; à direita, um retrato feito a distância e recortado depois.

No quadro da esquerda, o nariz domina o centro. A base parece larga, a ponta avança para a câmera, e as orelhas quase somem atrás das bochechas. A testa se curva para trás como se o rosto fosse um balão.

No quadro da direita, as orelhas aparecem inteiras, o nariz estreita e o queixo ganha peso. Nenhum traço mudou de lugar. Mudou só a posição de quem segurava a câmera.

A conta da perspectiva

Em fotografia, perspectiva (a relação de escala entre o que está perto e o que está longe) depende só da distância. A distância focal da lente, medida em milímetros, decide quanto da cena entra no quadro, mas não altera a proporção entre nariz e orelha.

Daí o truque do recorte. Uma foto feita a um metro e meio com a lente grande-angular do celular sai larga demais, com parede e teto em volta. Cortada até sobrar só o rosto, ela entrega a mesma perspectiva de uma teleobjetiva (lente de longo alcance) usada do mesmo lugar.

Quem decide o formato do nariz é o pé do fotógrafo, não a lente.

O número do estudo de 2018 vem de um modelo matemático. A equipe da Rutgers montou uma cabeça média, com as medidas de proporção facial de homens e mulheres adultos, e calculou a largura aparente do nariz em cada distância.

Para os homens, a distorção a trinta centímetros chegou a trinta por cento. Para as mulheres, a 29 por cento. A um metro e meio, o efeito ficou abaixo do que o olho percebe numa conversa.

Retratistas de estúdio chegaram à mesma distância por tentativa e erro, décadas antes do cálculo. A lente de retrato clássica, de 85 milímetros numa câmera de filme de 35 milímetros, obriga o fotógrafo a ficar perto de um metro e meio para enquadrar cabeça e ombros.

O celular piora a situação. A câmera frontal costuma ter lente grande-angular, pensada para caber o rosto e um pedaço do cenário com o braço dobrado. A lente larga não cria a distorção, mas convida o usuário a chegar perto, e a distância curta faz o resto.

A janela de luz também ajuda a ler a imagem do topo. A luz lateral cria uma sombra no lado do nariz, e na selfie essa sombra fica mais larga, reforçando a impressão de volume.

 
 

II  Quem Apertou

O cirurgião e o braço esticado

O cirurgião plástico facial Boris Paskhover, professor da Rutgers New Jersey Medical School, em Newark, começou a desconfiar das selfies ao ouvir a mesma queixa no consultório.

Pacientes chegavam com o celular na mão e mostravam fotos do próprio rosto como prova de que o nariz era grande demais. Paskhover reparava que, ao vivo, a pessoa na cadeira tinha um nariz diferente do retrato na tela.

Ele levou a suspeita para a pesquisa. Ao lado da pesquisadora Brittany Ward, primeira autora do trabalho, e de colegas da Rutgers e da Universidade Stanford, montou o modelo de cabeça média e simulou fotos em distâncias diferentes.

O artigo de março de 2018

O resultado saiu em março de 2018 na JAMA Facial Plastic Surgery, com o título “Nasal Distortion in Short-Distance Photographs: The Selfie Effect” (distorção nasal em fotografias de curta distância: o efeito selfie).

O trabalho fixou a distância típica da selfie em trinta centímetros, o alcance de um braço adulto dobrado segurando o celular. Fixou também a referência de um metro e meio, distância em que o rosto sai com proporções próximas das que o olho vê.

O estudo transformou uma queixa estética em erro de medição.

A repercussão veio rápido. Jornais e revistas americanos e europeus reproduziram o número dos trinta por cento, quase sempre ao lado de duas selfies comparadas.

Para Paskhover, a conclusão prática apontava para a conversa antes da cirurgia. Um nariz que só parece largo a trinta centímetros não precisa de bisturi; precisa de outra foto, tirada de longe.

O que a selfie fez com o consultório

A preocupação não ficou com a equipe da Rutgers. Na pesquisa de 2019, a Academia Americana de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva Facial contou 72% dos cirurgiões atendendo pacientes que buscavam ficar melhor nas selfies.

O fenômeno ganhou camada nova com os filtros de aplicativo, que afinam nariz e alargam olhos antes de a foto ser publicada. O paciente passou a levar ao médico um rosto alterado duas vezes: pela distância e pelo programa.

O estudo de 2018 trata só da primeira alteração, a da distância. Ela tem conserto gratuito e não depende de software nenhum.

 

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III  Real ou Feito

Feito, e as orelhas fora do lugar

Feito. Os dois rostos da abertura nunca posaram diante de uma câmera: um programa de imagem desenhou os quadros seguindo um roteiro da redação, e três detalhes entregam a montagem.

Primeira pista: a orelha muda de altura. Na selfie, a orelha da esquerda aparece acima da linha dos olhos. Numa foto real de braço esticado, a orelha fica escondida, mas não sobe.

Segunda pista: o fundo não muda. A parede atrás do homem tem a mesma largura nos dois quadros. A um braço de distância, a grande-angular mostraria muito mais parede do que no retrato recortado.

Terceira pista: a sombra do nariz não acompanha a luz. A janela fica à direita, mas na selfie a sombra cai dos dois lados, como se houvesse duas fontes.

A distorção do nariz, curiosamente, está bem desenhada. O pedido descrevia a selfie a trinta centímetros, e o gerador acertou a largura da base e a curva da testa.

Para medir o efeito no próprio rosto, bastam um celular, uma fita métrica e uma parede clara com luz de janela.

1. Fique de frente para a janela, com a parede clara atrás de você.

2. Faça uma selfie com o celular a trinta centímetros do nariz, medidos com a fita.

3. Peça a alguém que fotografe seu rosto a um metro e meio, com a câmera traseira na mesma altura dos olhos.

4. Recorte a segunda foto até o rosto ocupar o quadro inteiro, como na selfie.

5. Coloque as duas lado a lado na tela e compare a base do nariz e as orelhas.

No modo retrato de muitos celulares, a câmera troca para a lente de 2 ou 3 vezes de aproximação, e a pessoa recua sozinha para caber no quadro. O modo resolve metade da distorção sem que ninguém precise pensar nela.

A comparação funciona melhor com expressão neutra nas duas fotos. Sorriso numa e boca fechada na outra mudam a largura das narinas e confundem a leitura.

Quem fotografa sozinho pode usar o temporizador de dez segundos e apoiar o celular numa prateleira a um metro e meio.

Recue primeiro, recorte depois: a proporção do rosto nasce da distância.

Teste hoje: faça as duas fotos do roteiro e meça com os dedos, na tela, a largura da base do nariz em relação à distância entre os olhos; espere a base mais larga na selfie e as orelhas de volta no retrato recortado.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Que apelido o médico londrino Tijion Esho deu, em 2018, à onda de pacientes que levavam selfies filtradas ao consultório?

 
 
Quiz da edição

O estudo de 2018 na JAMA Facial Plastic Surgery mediu em quanto uma selfie feita a 30 centímetros alarga a base do nariz, comparada à mesma foto feita a 1,5 metro?

A15%
B45%
C30%
D60%

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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