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A 2 metros da lente, a chuva vira bola branca

O flash acende as gotas perto demais da câmera; sem ele, um poste aceso atrás da chuva desenha cada fio contra o escuro

Rua à noite na chuva com discos brancos de flash no primeiro plano.

Flash na chuva e as bolas brancas perto da lente

▼
 

A luz do flash cai com o quadrado da distância. Numa noite de chuva, o fotógrafo esqueceu a regra, apertou o disparador com o flash embutido ligado, e a rua sumiu atrás de uma nuvem de bolas brancas.

A regra do inverso do quadrado (a luz perde força na proporção da distância multiplicada por ela mesma) vale para qualquer fonte pequena. Uma gota a 50 centímetros da lente recebe 16 vezes mais luz do flash do que uma pessoa a 2 metros.

A gota mais perto, então, brilha muito mais do que o assunto da foto. E ela está fora de foco, porque a lente ajustou a nitidez lá na pessoa, não no ar à frente da câmera.

Um ponto de luz fora de foco não sai como ponto. A lente o espalha num disco claro, de borda macia, o chamado círculo de confusão (a mancha que um ponto vira quando a lente não o focaliza). Cada gota acesa vira um desses discos.

O fio de água desaparece no processo. O clarão de um flash de câmera dura uma fração minúscula de segundo, curta o bastante para congelar a gota parada no ar, sem rastro de queda.

O mesmo defeito aparece no mergulho e na poeira, e os fotógrafos subaquáticos o chamam de backscatter (retroespalhamento, a luz que bate na partícula e volta para a lente). Na chuva, a partícula é cada gota a menos de dois metros da câmera.

A saída inverte a posição da luz. Sem flash, a câmera depende da iluminação da rua, e a melhor delas fica atrás da chuva, de frente para a lente: um poste aceso, uma vitrine, um farol parado.

A gota é uma lente minúscula. Com a luz atrás, ela desvia parte do clarão para a frente, na direção da câmera, e brilha contra o fundo escuro. Com velocidade lenta, o brilho risca o quadro durante a queda e vira fio.

A imagem do topo mostra a primeira situação inteira, e a primeira seção conta as bolas, uma a uma.

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I  O Clique de Hoje

Uma cortina de discos na rua

A resposta de ontem

Que ave Ottomar Anschütz fotografou em pleno voo em 1884?

Cegonhas. Em 1884, em Lissa, na Prússia (hoje Leszno, na Polônia), Ottomar Anschütz fotografou cegonhas brancas em pleno voo com o obturador rápido que ele mesmo construiu, e as imagens correram a Europa como prova de que a câmera podia congelar o movimento de uma asa.

A imagem do topo mostra uma rua à noite, na chuva, fotografada com o flash da câmera, e um terço do quadro coberto por discos brancos e translúcidos.

Atrás dos discos, a rua está quase preta. O poste ao fundo aparece apagado, e o asfalto molhado não devolve reflexo nenhum.

Os discos têm tamanhos diferentes. Os maiores pertencem às gotas mais próximas da lente, porque quanto mais longe do plano de foco, maior a mancha que a gota desenha.

Alguns discos mostram um anel mais claro na borda. Em lentes com o diafragma (a abertura ajustável dentro da objetiva) fechado, os discos ganham lados retos e viram pequenos polígonos, com o número de lados igual ao de lâminas.

Por que a rua escurece

O fotômetro da câmera mede a cena e regula o flash pelo que vê mais perto. As gotas acesas parecem uma cena clara, e o flash solta menos potência.

Com o flash mais fraco, a luz que chega à rua a 5 metros é pouca. Pela mesma regra do inverso do quadrado, ela recebe cem vezes menos luz do que uma gota a meio metro.

O resultado soma dois defeitos numa foto. O primeiro plano fica cheio de manchas, e o fundo, onde estava a cena, fica escuro e sem detalhe.

O flash ilumina primeiro o que está mais perto, e na chuva o mais perto é a água.

O que a velocidade faz com a gota

A gota de chuva cai depressa. Ross Gunn e Gilbert Kinzer, do serviço meteorológico americano, mediram em 1949 a velocidade final de gotas de vários tamanhos, e as maiores, com uns 5 milímetros, chegaram perto de 9 metros por segundo.

A 1/125 de segundo, uma gota dessas percorre uns 7 centímetros enquanto o obturador fica aberto. Na foto, o percurso vira um risco.

A 1/1000, a mesma gota anda uns 9 milímetros, e o risco encolhe até virar ponto. O clarão do flash é ainda mais curto e congela a gota por completo.

Para desenhar fio, portanto, a foto precisa de duas condições juntas: velocidade lenta e luz de trás. Uma sem a outra devolve ponto, ou devolve fio apagado contra o escuro.

 
 

II  Quem Apertou

O fotógrafo da chuva sem flash

O fotógrafo americano Alfred Stieglitz, nascido em 1864 em Hoboken, Nova Jersey, fez algumas das primeiras fotos de rua à noite e na chuva, numa época sem flash eletrônico.

Stieglitz estudou química e fotografia em Berlim, nos anos 1880, com o professor Hermann Wilhelm Vogel. Voltou para Nova York em 1890 com uma ideia fixa: a câmera devia sair do estúdio e enfrentar o tempo ruim.

O flash disponível era pó de magnésio, que queimava numa labareda de fumaça branca. Na chuva, ele não servia para nada, e Stieglitz trabalhou só com a luz da cidade.

A rua molhada em Paris

Em 1894, numa viagem à França, ele fotografou A Wet Day on the Boulevard (Um dia molhado no bulevar). A foto mostra o calçamento encharcado devolvendo a luz do céu cinzento e as figuras escuras recortadas contra o brilho.

O truque dele era o mesmo do poste. A luz vinha de trás das figuras, batia no chão molhado e voltava para a lente, e as pessoas viravam silhuetas.

Stieglitz tratou a chuva como espelho, nunca como inimigo da foto.

As noites de Nova York

Entre 1896 e 1897, Stieglitz levou a câmera para as ruas de Nova York à noite. Em fotos como Reflections, Night (Reflexos, noite), os lampiões acesos aparecem atrás do assunto e o asfalto molhado duplica cada luz.

As chapas da época eram lentas, e cada foto exigia exposição longa, com a câmera parada. Pessoas andando saíam borradas; lampiões e reflexos saíam firmes.

A chuva fina, nessas exposições, não aparecia como fio. Os riscos de cada gota se somavam durante segundos e viravam um véu claro em volta dos lampiões, um halo macio, sem nenhum risco separado. O fio individual só apareceria décadas depois, com filme mais rápido e obturador curto.

Antes das noites, ele já tinha enfrentado a neve. Em fevereiro de 1893, numa nevasca, plantou-se na Quinta Avenida com uma câmera de mão e esperou uma carruagem entrar no lugar certo do quadro. A foto, Winter, Fifth Avenue (Inverno, Quinta Avenida), virou uma das imagens mais reproduzidas da fotografia americana.

Stieglitz fundou a revista Camera Work em 1903 e abriu a galeria 291, em Manhattan, em 1905. As duas ajudaram a pôr a fotografia nos museus como arte, ao lado da pintura.

Ele morreu em 1946, em Nova York. As fotos noturnas dele seguem a mesma lógica ensinada hoje para a chuva: luz atrás, câmera firme e paciência.

 

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III  Real ou Feito

Feito, e as bolas de tamanho igual

Feito. Nenhuma câmera esteve na rua da imagem de abertura: o quadro foi montado por um programa gerador de imagens, a partir de um pedido em texto da redação, e três detalhes denunciam a origem.

Primeira pista: os discos repetem o tamanho. Numa foto real, as gotas ficam a distâncias variadas da lente, e os discos vão de grandes a minúsculos. Na imagem gerada, quase todos têm o mesmo diâmetro.

Segunda pista: os discos atravessam o poste. Um disco de gota acesa clareia o que está atrás dele, como um vidro fosco. Na imagem, alguns discos passam por cima do poste sem mudar o tom do metal.

Terceira pista: há fios ao fundo. A chuva longe da câmera, sem luz de trás, deveria sumir no escuro. O gerador desenhou riscos finos de água lá atrás, iluminados por uma luz ausente da cena.

O asfalto escuro, por outro lado, está certo. Com flash embutido e chuva perto, a rua perde mesmo o reflexo, como mostra a primeira seção.

Para ver os dois resultados na própria câmera, bastam uma noite de chuva, uma janela ou marquise e um poste aceso do outro lado da rua.

1. Fique protegido da chuva, com a câmera no modo manual e ISO 1600.

2. Ligue o flash, aponte para a rua e fotografe a 1/125 de segundo e f/4.

3. Desligue o flash e mude de lugar até o poste ficar atrás da chuva, de frente para a lente.

4. Fotografe de novo a 1/125 e f/4, com a câmera apoiada no parapeito.

5. Repita a 1/30 e depois a 1/500, sem mexer no resto.

Na foto com flash, as bolas brancas aparecem já na primeira tentativa. Nas fotos contra o poste, o comprimento dos fios muda com a velocidade: longos a 1/30, curtos a 1/125, quase pontos a 1/500.

Se a foto contra o poste sair escura demais, a abertura pode subir para f/2,8. Se o poste estourar e virar mancha, o enquadramento pode deixá-lo logo fora do quadro, iluminando a chuva pela borda.

O fundo escuro é parte do método. Sem ele, o brilho de cada gota se perde contra um céu claro ou uma fachada iluminada.

Atrás da chuva, a luz desenha a água; na frente dela, só desenha bolas.

Teste hoje, se chover: faça as duas fotos a 1/125, uma com flash e outra contra o poste, e conte as bolas brancas da primeira e os fios da segunda; espere dezenas de bolas e nenhum fio na primeira, e o contrário na segunda.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quantas horas Alfred Stieglitz esperou na nevasca de 1893 até a carruagem passar no ponto certo da Quinta Avenida?

★ RARO

🔒

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Segundo a regra do inverso do quadrado, quantas vezes mais luz de flash uma gota de chuva a 50 centímetros da lente recebe, comparada a uma pessoa a 2 metros de distância?

A4 vezes
B8 vezes
C16 vezes
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