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90 graus de giro tiram a sombra do prato

De costas para a janela, o corpo apaga a luz do prato; com a janela de lado, a casca do pão volta a ter relevo

Prato com pão, meio tomate e azeite visto de cima, com a luz da janela pela esquerda.

O prato visto de cima, com a janela à esquerda

▼
 

A sombra cai sempre do lado oposto ao da luz. Quem fotografa o almoço de cima, de costas para a janela, põe o próprio corpo bem nesse caminho.

O gesto é automático. A pessoa senta no lugar de sempre, ergue o celular acima do prato e aperta. A janela fica atrás dela, a luz vem por cima do ombro, e o tronco, os braços e o aparelho formam uma parede entre a vidraça e a comida.

A foto não sai com uma silhueta escura, e por essa razão o defeito passa sem ser notado. A janela é uma fonte grande de luz, e fonte grande desenha sombra de borda mole, sem contorno. O que chega ao prato é um véu cinza: o arroz perde o brilho, o molho fica opaco, a salada parece murcha.

Quem tenta consertar costuma piorar. Acende a lâmpada do teto, que tinge a comida de amarelo, ou liga o flash do celular, que achata o prato e acende um ponto branco no molho. Outros esticam o braço mais alto, e a sombra continua lá, porque o corpo segue entre a janela e o prato.

O conserto não pede equipamento. Pede um quarto de volta: quem fotografa troca de lado na mesa até a janela ficar à sua esquerda ou à sua direita, e gira o prato 90 graus no mesmo sentido, para a comida continuar de frente para a câmera do jeito que estava.

Com a luz chegando de lado, cada grão, cada migalha e cada dobra da folha de alface projeta uma sombra mínima na direção oposta. A câmera enxerga essas sombras pequenas, e o olho as lê como textura. A janela que antes deixava o prato chapado agora esculpe o pão.

Flash, refletor e lâmpada comprada ficam no armário. A luz já estava na cozinha; faltava sair da frente dela.

O Clique de Hoje mostra onde ficar, onde pôr o prato e como acertar a luz na tela do próprio celular, com a janela fazendo o trabalho inteiro.

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I  O Clique de Hoje

Um quarto de volta no prato

No alto desta edição, um prato branco com pão de fermentação natural, meio tomate e azeite aparece visto de cima, numa mesa de madeira, com a luz entrando pela esquerda.

A luz que chega pela esquerda faz o serviço inteiro. A casca do pão ganha relevo, a metade do tomate mostra as sementes em volume, e a sombra das fatias escorre para a direita, onde a câmera consegue vê-la.

Por que a luz das costas achata

Luz que vem das costas de quem fotografa se chama luz frontal (a que bate no assunto na mesma direção da lente). Ela ilumina o prato por igual e esconde as sombras atrás dos próprios alimentos, num ponto que a câmera não alcança. Sem sombra visível, o olho não encontra relevo.

Na foto de cima, a luz frontal traz um problema extra. Para o celular ficar acima do prato, o corpo se curva sobre a mesa, e a luz, que já vinha das costas, bate primeiro no tronco e só depois na comida.

Luz lateral (a que cruza a cena de um lado para o outro) faz o contrário. Ela raspa a superfície da comida, acende o lado de cada grão voltado para a janela e deixa o lado de lá escuro. A soma dessas meias-luzes é o que a foto mostra como crosta, farelo e brilho de molho.

Onde ficar e onde pôr o prato

A posição se resolve em quatro ajustes, feitos uma única vez por refeição.

• Fique num lado da mesa onde a janela caia à sua esquerda ou à sua direita, nunca às suas costas.

• Gire o prato 90 graus no mesmo sentido do seu passo, para a comida manter a posição no quadro.

• Deixe o prato a um ou dois passos da vidraça: mais perto, a sombra escurece; mais longe, ela clareia.

• Apague a lâmpada do teto, que mistura luz amarela com a luz azulada da janela e mancha o branco do prato.

A janela não mudou de lugar. Mudou o lado de onde você olha para ela.

Acertar a luz na tela

Com o celular paralelo ao prato, toque na comida para o aparelho medir a luz ali, e não na toalha branca. Depois arraste o ícone do sol (o controle de exposição, que clareia ou escurece a foto) um pouco para baixo, até a borda do prato parar de estourar em branco.

Se o sol bater direto na mesa, a sombra fica dura e recortada. Uma cortina fina fechada transforma a vidraça de novo numa fonte grande e espalhada, e a sombra volta a ter borda mole, agora do lado certo.

O lado do prato oposto à janela pode sair escuro demais. O refletor continua dispensável: a parede clara e a toalha branca já devolvem parte da luz, e meio passo do prato para dentro do cômodo abre o resto.

 
 

II  Quem Apertou

Josef Sudek e o parapeito do ateliê

Josef Sudek, fotógrafo tcheco nascido em Kolín em 1896, passou anos registrando o que pousava no parapeito do próprio ateliê em Praga, com a luz que entrava pela vidraça.

Sudek começou a vida profissional como aprendiz de encadernador. Convocado pelo exército austro-húngaro na Primeira Guerra Mundial, foi ferido no front italiano em 1916 e perdeu o braço direito.

De volta a Praga, escolheu a fotografia como ofício e estudou a técnica nos anos 1920. Aprendeu a armar o tripé, trocar a chapa e disparar com uma mão só, carregando câmeras de grande formato (as de chapa grande, que só trabalham apoiadas no tripé).

O ateliê de madeira em Malá Strana

A partir de 1927, ele trabalhou num ateliê pequeno de madeira, num quintal de Malá Strana, o bairro antigo aos pés do Castelo de Praga. O cômodo tinha uma janela para o jardim, e Sudek fez dessa janela o assunto de uma obra inteira.

Durante a ocupação nazista, ele saía pouco. Entre 1940 e 1954 montou a série A Janela do Meu Ateliê: a vidraça embaçada de umidade, as gotas escorrendo, a árvore do quintal borrada do outro lado do vidro e objetos comuns pousados no parapeito.

Copo, ovo e pão

Nas naturezas-mortas (fotos de objetos parados, arrumados pelo fotógrafo), Sudek usava copos, ovos, pedaços de pão e frutas. A luz dessas fotos vinha da vidraça do ateliê, uma fonte que qualquer cozinha também tem.

O vidro embaçado fazia papel de difusor (superfície que espalha a luz e amacia a borda da sombra). As fotos da série têm sombras mansas, sem recorte duro, e os objetos ganham volume pelo degradê entre o lado claro e o lado escuro.

O princípio vale para um prato de almoço. Uma fonte grande e lateral desenha a forma sem gritar, e a sombra que sobra serve para mostrar o volume, nunca para esconder a comida.

Uma janela embaçada e um parapeito bastaram para Sudek montar uma das séries mais conhecidas da fotografia tcheca.

O poeta de Praga

Os tchecos passaram a chamá-lo de poeta de Praga. Em 1959 saiu o livro Praha panoramatická (Praga panorâmica), com vistas largas da cidade feitas com uma câmera panorâmica antiga.

Sudek viveu até 1976, em Praga. A série da janela segue como a parte mais citada da obra dele, e o ateliê de madeira de Malá Strana, refeito depois de um incêndio, funciona hoje como galeria de fotografia.

 

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III  Real ou Feito

Feito, e o garfo de cinco dentes

Feito. O prato do alto nunca esteve numa mesa: um programa de inteligência artificial montou a cena a partir de uma descrição em texto escrita pela redação, e três detalhes entregam a origem.

Primeira pista: o garfo de cinco dentes. O talher pousado à direita do prato tem cinco pontas. O garfo de mesa comum tem quatro, às vezes três, e o modelo de imagem costuma errar a conta quando desenha objetos finos e repetidos, como dentes de garfo e dedos.

Segunda pista: duas sombras, duas direções. A janela fica à esquerda, e toda sombra da cena deveria cair para a direita. A do pão cai. A do copo d'água cai para a esquerda, rumo à vidraça, como se houvesse uma segunda janela do outro lado, que a foto não mostra.

Terceira pista: o azeite em fila. As gotas de azeite saem redondas, do mesmo tamanho e com espaços idênticos entre elas. Azeite real se espalha em manchas de tamanhos diferentes, com bordas irregulares e algumas gotas emendadas.

Somadas, as três pistas mostram uma máquina boa de clima e fraca de física: ela acerta cor e textura e erra contagem, direção da luz e o jeito como um líquido escorre.

O detalhe que bate com uma foto real é a crosta do pão. A luz rasante (a que corre quase rente à superfície) acende as bordas da casca e deixa cada fenda escura, o desenho de textura que o prato girado entrega em qualquer cozinha.

Para comparar as duas luzes com o próprio almoço, bastam o celular, uma janela e dois minutos.

1. Sente no lugar de sempre, com a janela às costas, e fotografe o prato de cima, sem mudar nada.

2. Levante e dê um quarto de volta em torno da mesa, até a janela ficar à sua esquerda ou à sua direita.

3. Gire o prato 90 graus no mesmo sentido, para a comida repetir a posição da primeira foto.

4. Apague a lâmpada do teto, toque na comida para medir a luz e dispare.

Se as duas fotos saírem parecidas, o prato está longe demais da janela ou o dia está escuro: aproxime o prato um passo da vidraça e repita.

Faça o teste no almoço de hoje: amplie as duas fotos na casca do pão ou no grão do arroz e conte, numa área do tamanho de uma moeda, quantos grãos ou migalhas mostram um lado claro e outro escuro; o esperado é quase nenhum na primeira foto e a maioria na segunda.

 
 
Quiz da edição

Depois de trocar de lado na mesa para a janela ficar à esquerda ou à direita, quanto a edição manda girar o prato?

A45 graus, só para compensar o ângulo do celular
B90 graus no mesmo sentido do seu passo
C180 graus, para o prato ficar de costas para a janela
DNão precisa girar o prato, só reposicionar o celular

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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